quinta-feira, outubro 05, 2017

O Maravilhoso Jardim de Bella Brown

A vida lá fora.
Os sons das coisas a acontecerem.
O tempo a tiquetaquear.


É, no fundo, a confirmação de que não há antes nem depois.
Hei de apressar-me se quero chegar a tempo. Ou se quero chegar a lugar algum.
Só que a pressa não pertence a este tempo aqui.
Parece que a pressa é avessa ao tempo que me atravessa.
Hei de ser paciente.
Escutar (e não apenas ouvir) os lugares que são os tempos de outros tempos mais o tempo que agora se faz.
Hei de ser eu.
Não sei ser de outro jeito. Não tenho jeito para ser qualquer outro.


O meu maior infortúnio?


A vida cá dentro.
Os sons que não oiço mas imagino.
O tempo a tiquetaquear.

terça-feira, outubro 18, 2016

Acerca do Bob Dylan

Tem sido muito o ruído à volta do Nobel da Literatura deste ano.
Consagra-se um "monstro" das canções e não um(a) das letras.
Eu diria, e depois de passados o espanto e espasmos iniciais, que a literatura tem espaço suficiente para nela caber mais do que os escritos/livros/autores convencionais.
A literatura tem pendor disruptivo, que é o que permite a cada ser, sociedade, país, cultura avançar na direção do outro, bem como na direção do futuro - o único tempo possível.

Se o Bob Dylan é americano, se é símbolo de uma cultura pop, se não escreveu nenhuma obra de referência, enfim, pretextos para não se aceitar aquilo que é inevitável: o mundo não é o mesmo que conhecemos e que ainda vamos tratando por tu.

E só a literatura para reconhecer e abraçar tal diferença. Trazendo a margem para o centro, empurrando o centro para a margem.

Lídia Jorge, aguenta. 

Literatura

O que fica do que passa...

domingo, outubro 16, 2016

A morte não é para todos

Eu quarenta, ele quatro.

- Mãe, vais morrer amanhã?

(murro no estômago, no âmago do meu eu)

- Não sei - disse - eu acho que não, mas todas as pessoas morrem um dia.
- Mas eu não quero que TU morras.
- Eu não sou diferente dos outros.
- Não és?
- Não.
-Agora estou triste.

(novo murro no estômago, bem no âmago do que eventualmente é meu)

terça-feira, outubro 04, 2016

A Partida

Fica, porque, senão, vais levar-me nessa mala que fizeste sem a minha ajuda.
Fica, porque ires implica o adeus e eu não estou preparada para olhar-te ao longe, de longe.
Fica, só mais um dia, só mais uma vida, que te custa  esperares uma vida? 

Que te custa?

Já a mim, custa-me o tamanho da tua ausência que será maior que tu.
Custa-me o vazio desta casa sem o teu corpo dentro.
Custam-me todas as palavras engasgadas nesta garganta que nunca terei coragem de pronunciar.

Vai.
Não olhes para trás, é lugar de passados. De fantasmas também.
De coisas acontecidas e com cheiro a mofo.

Vai.
Não hesites um segundo. Poderá ser tarde e o futuro não espera por ti.
Sem pressa, um passo. Depois outro.

Vai porque, não sei como, o meu colo encolheu. Já não serve.
Não te serve.

Ainda assim, mesmo assim, ficarei por aqui com esperança de um regresso. 
Como se o meu colo (imagina!) pudesse ser um lugar maior e ter o tamanho exato do teu tamanho.
Imagina...

Que custa? 

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

eu não sei quem te perdeu

Os corredores frios. Os procedimentos, exatamente como estabelecido, para impedir a ansiedade de entrar. Ainda que ela já tenha entrado antes. E vá permanecer durante. Depois também, mas só um bocadinho.
Um bocadinho é aceitável, não é?

Os cheiros do cheiro dos outros. Aos quais não me habituo. Nem quero.
As portas com pessoas para fora e para dentro. Apetece-me espreitar. Saber de qualquer coisa. Uma coisinha servia.

Escondo-me aqui atrás a fingir que não me importo, só para que os minutos que as horas têm dentro fiquem suportáveis.
Pior do que a espera é a espera nestes corredores. Antes esperar-te como de costume. 

Deixei-te a sorrir.
Gosto da forma como sorris. A abraçar o mundo numa luz só tua. O mundo, acho, não chega para ti. Está-te curto. Encolhido. Engelhado.
Hás-de reinventá-lo. Determinar um tamanho em que caibas com todas as tuas dúvidas.

As camas deste lugar também não te servem. São curtas. Encolhidas. Engelhadas.
Ainda vamos rir juntos dos pés que te ficarão de fora, sem qualquer conforto de colchão ou estrado.

Espero-te, ansiosa.
Espera e ansiedade, que raio de par: feitos um para o outro. Um par dançante. Tango.

Não sei quem te perdeu, porque desde que nasceste só te encontro, mesmo de todas as vezes que te perdi. E hei-de perder. E outra vez encontrar nem que seja um instante. Aquele em que eu possa, consiga talvez, ter-te pequenino nos meus braços.

E o teu nome que não é pronunciado. Perdeste-te?

quinta-feira, outubro 01, 2015

Só Caetano

Doce, como há poucos.
Meigo, como haverá ainda menos.

Nasceste para consolar-nos. 
Ainda me lembro do choque ao saber-me grávida tão pouco tempo depois de estar grávida: "está aqui uma coisinha", disse a Madalena. Uma coisinha.

Estava enganada. Não eras uma coisinha. 
De todos, foste o que nasceste com mais força. Não precisei procurar-te. Ouvia-te. O teu choro era percetível a quilómetros, como se dissesses: estou aqui.
Eu sei, bebé. 
Eu vejo-te. 
Sinto-te. 
Amo-te.

Não me lembro de ensinar-te nada. Quando quero ensinar-te, já tu aprendeste.
Bebes água pelo copo.
Sobes para as cadeiras, mesas, camas.
Desces das cadeiras, mesas, camas.
Cantas as canções sem dizer as palavras.
Danças as canções mesmo que sem palavras.
Escolhes os livros. As histórias que queres que te contem.

A tua língua tem dicionários próprios: Bu - Có - Zó - Pei.
Sabes sempre o que queres, mesmo não querendo. 
Não desistes, insistes.

Abraças como poucos.
Afagas como nenhuns.


És o meu Caetano. Sem Veloso, mas com a mesma capacidade de me enlevar.
Tens um jeito próprio.
Enamorei-me de ti,contigo para sempre.
Mesmo sabendo que, de todos, és o que não me escolhe em primeiro lugar. 
Preferes o Lucas. E eu aceito a tua preferência, resignando-me com amor. 



Afinal, o casamento ainda é deste tempo

Vais casar.
Casar. Casarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasarcasar.

"Ai vida", diz a Branco e eu acompanho-a - ai, vida...

Era ainda ontem e estavas ao meu colo, a sobrar-me dos braços. Deves ter sido o primeiro. Estreaste-o. E eu gostava tanto que me lembro de esconder-me de todos só para pegar-te. Tudo servia como desculpa. 
"Tia, ele estava a chorar."  Mesmo que não estivesses.
Treinavas-me, sei-o agora, para ter estes braços de mãe, capazes de aninhar todas as dores do mundo.

Era ainda ontem quando me emocionava com a tua redação escolar a confessar a vida inteira dedicada ao futebol, a confessar a mágoa de não poder jogar, pois a doença então descoberta roubava-te esse sonho, antes mesmo de saberes sonhar.

Era ainda ontem, foi ontem, sei-o, que abandonaste todos os jogos em que perdias. Vencer era o teu ADN, a derrota era assunto dos fracos e, esses, não te interessavam. 
Eu ria-me. A Tânia ria-se. a Rita ria-se. Tu irritavas-te.

Era ainda ontem que me consolavas pela perda. A perda de um amor já ido. A perda irremediável dos que partem e não voltam. 
"Prima" é assim que começam todas as tuas frases...

"Prima", eu oiço-te. Eu oiço-te. Até no dia em que corri que nem louca a salvar o Rodrigo dos olhares dos vizinhos, do gelado ensanguentado, da moto deitada no chão e do teu olhar perdido que dizia desculpa, mil vezes desculpa.
Não te culpei, um segundo que fosse, logo, não havia lugar para a desculpa.

És íntegro, incorruptível nas tuas decisões e nos teus gostos. 

És deste tempo, sendo de outro. 

És tu, contigo e com o que escolhes ser de ti.

Não tenho dúvida de que sábado será um dia de muitas emoções. 
Não me embaraçará as lágrimas porque marcarão a felicidade de te saber feliz. 
Sê feliz.
Quero muito ver-te feliz.




sexta-feira, maio 08, 2015

2013-2015

Escrevi que nem louca nestes últimos anos.
E não há um único rasto das palavras que juntei em frases e das frases que verti em texto.
Tudo escrito em escrita que não se vê, não se sente, logo, não existe?

Eu existo. Como sei?
Sei-o porque tu me ajudaste a descobrir.
Sim, tu.
TU
Só tu, mesmo tu.

E tudo pode ficar como antes, mas nada ficará como antes.
Depois de ti, o amanhã, com a escrita a tocar-me nos dedos e os
sentimentos virados do avesso.
Sem tempo mas com tempo para descobrir. Descobrir-me. Descobrir-nos.
Há tempo.
Haja tempo.

Zé, o meu

Era uma vez o Zé, senhor de nenhumas fortunas e pouco dinheiro. A compensar-lhe o desgaste da carteira vazia, tinha o génio dos artistas.
Fugiu à mesa pouco farta, ao calor desenfreado e à lonjura de nenhures do alentejo e estabeleceu-se em Lisboa. Com ele vieram os quatro filhos e a mulher. Mas o Zé, de marido pouco soube, de pai pouco fez. 
Os quatro filhos depressa se multiplicaram em netos e em bisnetos. Da mesa pouco farta, Zé passou a uma família farta. E fartava-se dela com frequência, embora nunca ninguém lhe tenha conhecido um esgar de impaciência ou de intolerância.
As mulheres, segundo a Maria, a esposa, também se multiplicavam e nem as primas escapariam a tamanha voracidade sentimental.
O Zé viajou - Espanha, Suíça, Holanda.
O Zé fez amigos até mais não: 1, 2, alguns, vários, muitos, tantos.
O Zé reinventou-se e nunca sucumbiu ao infortúnio, nem mesmo quando se viu obrigado a enterrar a Maria no cemitério de São Domingos de Rana.
Disse aos filhos que haveriam de morrer primeiro do que ele. Assim não foi, mas ao dizer isso ele não queria dizer isso, queria apenas sublinhar que se sentia eterno como se tivesse bebido água da fonte da juventude.
E foi jovem até não ser mais.

(ainda tenho os teus olhos nos meus. ainda guardo o calor das tuas mãos nas minhas. menos um para amar. menos um para amar-me. sentir-te-ei pelos restos dos dias que ainda me sobram. chorar-te-ei como agora, no silêncio de quem não precisa mais nada para lembrar-te. somos iguais. quero honrar essa igualdade. tu avô eu neta. mas sem o meu avô como poderei manter-me neta?)


quinta-feira, setembro 19, 2013

Porque me fizeste mãe, filho

 - Mãe.
A palavra fica, até hoje, ancorada no meu dentro. A desdobrar-me a vida em plenitude e satisfação.

-Mãe, já viste que este ano eu só quero de presente coisas de que preciso mesmo?

Sim, já vi. Já vi que te estás a tornar homem muito rápido. Pelo menos, para mim, é rápido demais, mesmo que ficasses criança a vida toda nunca seria tempo suficiente.
O amor de mãe é sôfrego, desesperado, ambicioso e egoísta. O amor de mãe é tão egoísta.
Se eu pudesse, porque querer eu queria, serias só de mim.

Dezassete. De-zas-se-te. Dez mais sete. Dez com sete.

E daqui a nada, o voo, por fim. Como fim de uma vida que conhecemos tão bem os dois. Nós os dois, juntos.

- Filho, já viste que não me cabes no colo?
- Filho, já viste que a tua barba me pica quando me beijas?
- Filho, já reparaste que viras a cara para não me ver despida?
- Filho, já reparaste que fechas todas as portas atrás de ti?
- Filho, já reparaste que preferes conversar com os teus amigos do que comigo?
-Filho, já viste que eu estou menos mãe e tu menos filho?

Amo-te de um amor tão profundo que, estupidamente, choro só por escrever que te amo de um amor tão profundo.
Tenho tantas mas tantas saudades de nós. De nós antigamente. E tenho ainda mais saudades de nós no futuro.

És único.
És vivo.
És pleno.
És vida.
És graça.
És eu.
És nós.
És meu, mesmo sendo do mundo.
És meu, mesmo quando não existir eu.








segunda-feira, setembro 16, 2013

P de (P)essoa

música de fundo como que a embalar-me os pensamentos
se eu tivesse pensamentos
a vida impede-os
atrasa-os
adia-os
evita-os

E eu deixo-me ir, como no resto
porque não há nada que sobre depois disto que nos resta
não é dinheiro o que nos resta
não é emprego
não é economia
não é dignidade
nem é nada

mas o nada de nada, o nada vazio que está no lado oposto do nada de Pessoa

Às vezes nem pessoa nos resta
Ser pessoa obrigaria os pensamentos a acontecer
não haveria nada que os pudesse impedir, atrasar, adiar ou evitar

Ser pessoa é não poder ir, como no resto
Ser pessoa é estar com o Pessoa em quase tudo o que escreveu
é ser tudo mesmo sendo nada

É comover-nos
É compadecer-nos
É partilharmos
É descalçar os nossos sapatos e calçar os dos outros

Como descalço os meus sapatos e calço os dos outros?

Não sei, se soubesse os pensamentos sobravam-me e
hoje
neste instante
no momento em que digo "no momento"
tenho fome de silêncio

sexta-feira, maio 10, 2013

Estranha forma de vida

Quando caminho pelo longo corredor que vai do meu gabinete ao do meu director, vou convencida de que os assuntos que levo entre os dedos são importantes, muito importantes, tão importantes.Como consequência, a imagem que tenho de mim, nesses pequenos momentos, é de que sou importante, muito importante, tão importante. Eu e o trabalho que é realizado por mim.
Dou passos e, com eles, sinto-me crescer. Como a Alice, mas sem a bolacha mágica. 
Penso: este assunto é importante, eu sou importante e desenvolvo um trabalho importante.

mentira. 
Uma mentira que conto a mim própria para me sentir grande no trabalho que desenvolvo todos os dias. Não faço nada que verdadeiramente mude o mundo - como sempre pensei que faria - ou sequer o microcosmos.


Ao caminhar pelo longo corredor que vai do meu gabinete ao do meu director, vou convicta de que os assuntos que levo entre os dedos não são importantes, muito importantes, tão importantes. Como consequência, a imagem que tenho de mim, nesses momentos, é de que sou insignificante, muito insignificante, tão insignificante. Eu e o trabalho que é realizado por mim.
Dou passos e, com eles, sinto-me diminuir. Como a Alice, mas sem bolacha e sem mágica.
Penso: nenhum assunto é mais importante do que o mundo, que está em mudança. E eu faço parte do mundo, de um dos seus múltiplos e inacabáveis microcosmos. Eu estou em mudança. O mundo muda comigo.

mentira.
A nossa vida é toda ela uma encenação da qual vamos sendo melhores ou piores actores. E da minha encenação faz parte julgar-me importante pelo que faço, da forma como o faço. 

Portanto...

Quando caminho pelo longo corredor que vai do meu gabinete ao do meu director, vou convencida de que os assuntos que levo entre os dedos são importantes, muito importantes, tão importantes.Como consequência, a imagem que tenho de mim, nesses pequenos momentos, é de que sou importante, muito importante, tão importante. Eu e o trabalho que é realizado por mim.
Dou passos e, com eles, sinto-me crescer. Como a Alice, mas sem a bolacha mágica.
Penso: este assunto é importante, eu sou importante e desenvolvo um trabalho importante.





quinta-feira, abril 04, 2013

Retrato

Não és simpático. Tens um sorriso selectivo. Sais ao teu pai, diz a avó Natália. 
Ainda outro dia, a avó Xana esgotou as brincadeiras e não conseguiu arrancar-te um esgar. Nem uma intenção. Nada.
Há alturas, porém, em que o riso chega espontâneo, honesto, natural. Quando o mano velho chega a casa ou o pai, quando vês o Tomi ou uma qualquer criança.
Delicias-te com água. Com a que bebes e, sobretudo, com a que te envolve na hora do banho. 
Estou morta por te levar à praia, no verão. Já nos estou a ver aos dois embrulhados na areia, com a toalha enrodilhada aos nossos pés, sem qualquer utilidade. Já estou a ouvir o teu pai reclamar com a areia que trazemos nos pés, nas mãos, no corpo. E a tia Rita a exigir que não nos aproximemos dela.
És observador, curioso e desconfiado. Não gostas de sítios novos. Ou de pessoas desconhecidas. 
O teu pior pesadelo são viagens prolongadas de carro. Reclamas. Esperneias. Reivindicas.
Gostas de comer: leite, sopa, papa, fruta: maçã, pêra, banana. Quando te digo ba-na-na, ris-te à gargalhada. Ba-na-na. Só de escrever dá-me vontade de rir: ba-na-na (rio-me).
Gostas de música. Antes, adoravas estar ao meu colo a dançar. Agora, queres estar no chão para encontrares o teu próprio ritmo. Abanas as pernas e simulas passos, os teus primeiros passos. Desajeitados, envergonhados, mas passos. Os teus.
A tua história favorita é a do Dentes, o tubarão que, pela primeira vez, vai à escola com a sua sacola. O Dentes morde tudo por onde passa. Curioso, tu também mordes tudo por onde passes - é da idade. Atacas-me e eu, retaliando, ataco-te. Passamos horas nisto: tu mordes-me e eu, fingindo-me aborrecida, mordo-te também. Tu ris-te e eu, só de te ver rir, rio-me para ti.
Não te pareces comigo. És igual ao teu pai. Gostava de ver qualquer coisa meu em ti, mas sabe bem ver em ti o teu pai que não conheci.
Sou doente de amor. Uma doença que não terá cura. Nem eu quereria essa cura. Negar-me-ia a aceitá-la.
Quero ver-te crescer. 
Fico aqui à espera de te ver crescer.
Não te esqueças que estou aqui, à espera, de te ver crescer.
Lucas do Mar  - porque foi de lá que vieste


quarta-feira, abril 03, 2013

A minha vida...

... não dava um livro.

Não dava um livro ou uma notícia. Nem uma reportagem. Não dava coisa nenhuma.
A minha vida é como tantas. Igual. Sem tirar nem por. Sem por ou tirar.
Na minha vida há amor, desamor, há mal-entendidos, bem-entendidos.
Há memória, há passado, há arrependimento. 
Também há saudade, daquela que aperta a garganta e a deixa sequinha, sequinha (sim, avó, a saudade que seca a minha garganta tem o teu nome inscrito).

Na minha vida há dúvida, mais dúvida que certeza. Aliás, há tanta dúvida que eu mesma duvido que a minha vida seja mais do que a tentativa de reparar todas as dúvidas que desenham o meu percurso.
Também há dívida. Devo coisas a pessoas. Coisas pequenas, mas também coisas grandes.Há dívidas que nem sei nomear ou traduzir em linguagem.

De linguagem percebe o Sócrates. Já o ateniense era bom nisso. Regressou e com ele trouxe a sabedoria - nunca a humildade - de chamar as coisas pelos nomes. Goste-se ou não se goste, estou em crer que José Sócrates foi o melhor primeiro-ministro português. Se não o melhor primeiro-ministro, o melhor político.
Sou capaz de entender os ódios que uma declaração como esta possa gerar. Mas isto é realmente o que penso. 
Cavaco Silva, Durão Barroso, António Guterres, Pedro Santana Lopes. Nenhum destes foi melhor ou fez mais pelo país. A diferença, que é sinal dos tempos (que são inevitavelmente outros), é que José Sócrates foi julgado na praça pública como nenhum outro até aqui. Não houve nenhuma área que tenha sido poupada: nem orientação sexual, nem moralidade, nem ética. Foi alvo atroz de uma campanha de descrédito cuja finalidade falta apurar. 
Se cometeu erros? Claro. Quem os não comete, cometeu ou cometerá?
Só um líder para gerar tanto medo. Nem o PS escapa à onda de medo que o seu regresso político provocou. 
Veio para se defender. Tinha direito a fazê-lo, pois não houve ninguém que o fizesse em sua vez. Por si. Nem aqueles que se dependuravam nas badanas dos seus casacos impecavelmente engomados.
Sócrates tem a inteligência de poucos. Será com curiosidade que assistirei às próximas lides da sua arena política. Tem alguns cavaleiros pela frente que não hesitarão em cravar-lhe no dorso bandarilhas. Só que não se esqueçam os seu opositores que em Portugal (à excepção de Barrancos) a morte do touro é proibida na praça e, na verdade, ele está mais para forcado do que para touro.

segunda-feira, março 25, 2013

Do amor, com amor, pelo amor. Amor a mil. Amor de dia, de noite. Com frio, ao calor. Sem reservas. Amor de mãe. O meu. Para ti.

sexta-feira, março 22, 2013

o meu país já não se chama

O que anda este país a fazer às pessoas?
O que seria deste país sem as pessoas?
O país. As pessoas.
Não há país que não seja para as pessoas, pelas pessoas.
E haverá pessoas sem país?

Há um barco à deriva no tejo, nem sei se leva gente dentro.

O meu país, como o barco, está à deriva num rio que não se chama tejo mas tem outro nome qualquer. Terá  um nome ou, no limite, Nenhum Nome Depois, como o da Maria.
Gostava de saber o que pensa a Maria deste barco, em forma de país, à deriva pelo rio: rio acima e rio abaixo.
As pessoas gostam de ter um país. Interessa-lhes por razões de justificada identidade. 
Já duvido se o país gosta de ter pessoas. Se gostasse, o chão frio  não seria cama digna para alguns deitarem a cabeça; se gostasse, a fome não amarelecia o rosto de outros tantos; se gostasse, as crianças não teriam nas mãos vazias o medo do futuro.
O futuro. Que futuro? Qual futuro?

Este país não está com as pessoas.Não existe nas pessoas. 

Hoje, este país poderia ter um nome qualquer. Ser qualquer outro.

Tenho saudades de ser pessoa no meu país. Oxalá o meu país tivesse saudade de ser pessoa.


quarta-feira, março 20, 2013

A felicidade tem dias

Acordo, devagar, de um sono que não foi profundo.
Ainda encadeada pela luz, avanço pelo dia dentro. Há coisas que mudaram de sítio e pessoas que não moram mais nas casas de sempre.
Não me lembro se sonhei ou o que sonhei.
Estou sozinha, sei-o.
Socorro-me de memórias, do embalo de músicas que já não oiço porque também já não mas cantam.
Acordei diferente, sinto-o, ainda que o não veja.

Gostava de ter tempo para acordar um pouco mais devagar.

O sol não é o mesmo. As pessoas estão também elas diferentes, apesar de parecerem as mesmas.
Um dia a mais no calendário do tempo.
Um dia a menos no calendário da vida.
Não voltaria a dormir, se eu pudesse.

Se eu pudesse reuniria o antigamente, com o agora e com aquilo que  há-de vir e dava-me por acabada.
Por acabar está a felicidade, mas também não é certo que esta deva ter um fim. Ou um qualquer início.

Voltei. Esperemos que também o resto volte para mim.

Devagar. Com o sol a bater-me nas pestanas reflectidas na janela do carro em andamento.

 Estou aqui e não poderia deixar de dizê-lo.

sexta-feira, junho 08, 2012

Vamos Lá Perceber as Mulheres, Mas Só Um Bocadinho

Muitos tentaram.
Raros o conseguiram.
Nem mesmo as mulheres para se perceberem a si mesmas...

Vamos Lá Perceber as Mulheres, Mas Só Um Bocadinho é um monólogo interpretado pela psicóloga clínica, Marta Gautier, que está mais de duas horas a interagir com o público numa peça em que ninguém é actor. Não há ficção. E também não há cenário, pois, na verdade, aquilo não é teatro. Embora o espectáculo seja apresentado na sala de um teatro - no meu caso, no São Jorge - bem poderia ser em outro qualquer lugar. Desde que íntimo. Próximo. Confessional.
Mais do que entretenimento, ali a terapia desenvolve-se através - e por causa - do riso. As pessoas riem-se não só de si, dos seus, como também dos outros e, o melhor de tudo, com os outros.
Encenando pequenos episódios domésticos, Marta Gautier consegue iluminar aquilo que há de mais absurdo no ser humano - e não apenas nas mulheres.
Demasiado referencial, demasiado literal, demasiado mimético, falta ao espectáculo a dimensão teatral que permite o sonho, o devaneio, a liberdade. Ainda que no epílogo haja a tentativa (não conseguida) de resgatar as pessoas da sua comédia doméstica para as enfaixar contra a poesia da vida.
Não se dá pelo tempo passar, mas também não se dá qualquer mudança interior que a arte, tantas vezes, impõe.

segunda-feira, junho 04, 2012

A Dúvida é o que sempre foi: dúvida

Durante muito tempo - tanto que nem me lembro quanto - considerei que não queria ser mãe novamente. Mas a vida não se compadece com predeterminações arriscadas e definitivas e fez-me grávida, 15 anos depois da primeira vez.
Uma gravidez, ainda assim, não acontece do nada - ou não deveria acontecer. Há um contexto que permite que ela se deseje e, depois, se concretize.
Esta não foi diferente. Primeiro veio o amor e, logo depois, a certeza de querer prolongar, para fora de mim - de nós -, esse amor.
19 semanas. Estou grávida de 19 semanas.
A minha barriga cresce, devagarinho. Comecei a sentir o bebé, ainda que seja qualquer coisa muito incipiente.
Sinto-me cheia de dúvidas e, sobretudo, de dúvidas: se estará tudo bem, se é saudável, se a dor X ou Y é normal, se vai morrer, se...
E não há literatura ou voz médica que acalme e silencie estas dúvidas. São elas que me garantem que, às 19 semanas, eu já sou mãe deste bebé que cresce dentro de mim, comigo, para mim.
A grande - talvez a maior - tarefa da maternidade/paternidade é aprender a viver com dúvidas: estará bem, ficará bem, é feliz, será feliz.. E, nos intervalos dessas dúvidas maiores e existenciais, desfrutar do bem que sabe participar na formação de um ser humano que se deseja ter tanto de nós quanto ser mais do que nós, maior do que nós, diferente de nós - ser nós, sendo ele mesmo.
Estou feliz.
Quero vê-lo.
Abraçá-lo.
Cheirá-lo.
Pegar-lhe ao colo e embalá-lo nos meus braços o tempo que ele deixar. Para mim, será sempre o tempo da (minha) vida toda.