quarta-feira, agosto 20, 2008

Medo de ser IRRESPONSÁVEL


Estou com uma vontade louca de ser totalmente irresponsável. Sinto-me extenuada intelectualmente, já para não falar fisicamente. Isto de mudar de um emprego para outro sem fazer uma lavagem espiritual pelo meio não é benéfico. É por isso que neste momento, neste agora que inauguro enquanto escrevo a palavra "agora", me apetecia correr de mim para fora, esquecer as minhas mil e uma responsabilidades e dedicar-me inteiramente a ver-me passear pelo tempo.

Se fosse completamente irresponsável, estava agora a fazer o que mais me apetece: terminar a leitura do belíssimo livro A Sombra do Vento. Se eu fosse o que não sou, andava a vaguear pelas ruas de Barcelona, essas ruas que só existem nas páginas do livro de Zafón. E naquele livro, mais do que saber o que aconteceu a Carax, quero descobrir em quem se tornará Daniel.



Vejo daqui uma palmeira e imagino o que seria se nela habitasse uma ave e se eu pudesse escutar o seu canto. Aquela palmeira que eu vejo encontra-se perdida entre estruturas de cimento (ou pedra?) e está ali para que eu me lembre (sim, ela está ali só por causa de mim) que a vida é uma palmeira perdida entre estruturas de cimento. O segredo - se é que existe um - é tentar ignorar as estruturas e encontrar o caminho até à palmeira.


Bem... a Sombra do Vento não está aqui comigo, aguarda-me em casa. Não vale a pena estar a pensar em coisas que me apetecia fazer se a irresponsabilidade fosse uma característica ao meu alcance; não é. Só consegue ser irresponsável quem não tem medo do amanhã, seja ele qual for. E eu tenho. Sinto medo de todos os amanhãs que me aguardam.

terça-feira, agosto 19, 2008

Só para ti

PARABÉNS, MANA

Ela gosta de piscinas. Eu gosto de mar. Ela limpa a areia do corpo pois incomoda-a. Eu enrolo-me na areia, pois aquece-me. Ele come toblerones, devora-os. Eu prefiro chocolate Milka. Ele bebe leite como quem bebe água e saboreia o café devagar; eu bebo água como devia beber leite e derreto-me por uma chávena de chá. Ela ouve D. Kikas e Da Weasel de sorriso aberto e cheia de ginga no corpo. Eu oiço Souad Massi e Mariza, que ela detesta. Ela não gosta que os meus amigos lhe digam que ela é tão diferente de mim. Eu gosto que os meus amigos percebam a nossa diferença. Ela chora e ri simultaneamente. Eu choro nos dias tristes e rio em todos os outros. Ela ri alto. Eu rio para o alto. Ela diz "amo-te" com a mesma facilidade com que sente o que diz. Eu escondo os "amo-tes" com a mesma facilidade com que os sinto. Ela convenceu-se de que o mundo está contra ela. Eu asseguro-me de que o mundo está aí para mim. Ela lê Paulo Coelho, entende-o e respeita-o. Eu desprezo-o (com a certeza de que a ignorância sobre o que ele escreve é total) e dedico-me a ler Carlos Ruiz Zafón. Ela sabe da existência de um Deus (o dela), eu renuncio à constatação da Sua existência. Ela diz o que pensa sobre as pessoas, eu digo o que gostaria de pensar sobre elas. Ela é meiga e doce na sua bravura; eu nem sei o que bravura significa. Ela é mordaz na sua inteligência; eu sou voraz na falta dela. Os seus abraços permanecem na nossa pele tempo indefinido; a minha pele perde-se nos abraços. A força da sua voz enfraquece-nos a alma, do lado dela, somos infinitamente pequenos. A força da minha alma enfraquece-me a voz e, do meu lado, as pessoas parecem maiores do que são. Ela faz-me rir. Eu a ela eventualmente. Ela não come batatas assadas, eu prefiro-as às fritas. Ela é a menina do papá. Eu a da mamã. Ela perde horas a olhar para a lua, a fazer Reiki e a acreditar que a meditação fa-la-á ser melhor pessoa. Eu gostava de poder olhar para o sol sem chorar e acreditar que um dia os meus chakras entrarão em equilíbrio sem sequer eu saber o significado de chackras. Ela despreza a depilação com cera, a manicure e a pedicura, eu não as dispenso. Ela sabe que ser mulher é qualquer coisa que existe para lá de qualquer artifício. Eu sei que ser mulher se consubstancia nesses artifícios. Ela goza com a forma como a minha voz se transforma ao telefone. Eu delicio-me a vê-la dançar kizomba, morna, batuque e tudo o que tenha África inscrito. Ela busca África na música. Eu na literatura. Ela é a melhor mãe do mundo. Eu desejaria sê-lo. Ela ama o filho como ninguém. Eu amo o meu filho como ninguém. Ela tem voz de anjo quando canta. Os anjos fogem quando me ouvem cantar, ou fugiriam, se os houvesse. Ela é mais nova do que eu três anos, três meses, três dias e não sei quantas horas (eu não me lembro, mas ela sabe-o, com certeza). Ela inventa memórias da nossa infância. Eu tenho as minhas próprias. Ela discute comigo. Eu discuto com ela. Ela gosta de mim como ninguém poderá um dia gostar. Eu gosto dela como ninguém poderá. Ela é minha irmã há 29 anos. E eu não me lembro de mim sem me lembrar dela. Ela é diferente, sim. Somos como duas flores nascidas da mesma planta, só que temos sabor e cores diferentes; todavia, não deixamos de ser as duas flores da mesma planta. Ela sou eu com outro gesto e outra substância; eu sou ela com outra forma e jeito de ser. Somos ambas mulheres e mães, mas somos sobretudo amigas que discutem com a convicção de que podem tornar o munda da outra mais respirável, mais habitável. Não é uma relação pacífica, só que ela sabe e eu sei que seríamos miseráveis sem o amor uma da outra. Aliás, ela sabe e eu sei que uma com a outra somos mais capazes.


P.S. Este texto é só para ti!

segunda-feira, agosto 18, 2008

O relógio, o tempo, a família

Estava ontem a chegar a casa, quando reparei num outdoor com a informação da festa do Avante; pensei quase automaticamente: "Ainda não retiraram esta informação desde o ano passado?!" Ao mesmo tempo que me intrigava com a lentidão dos serviços municipais, na mudança e actualização dos outdoors, reparei que, afinal, sem que eu tivesse dado por isso, a festa do Avante reportava-se ao ano 2008, aquele em que nos encontramos agora. Conclusão? Estou a envelhecer. O tempo já não tem a mesma medida de outrora. Quando eu era uma menina de olhos grandes e doces, o tempo era maior do que eu e a minha ambição resumia-se aos 18 anos, que me pareciam escapar dos dedos ou entre os dedos. Aliás, os meus dedos já não chegam para indicar a minha idade, preciso de ajuda extra. E com uma mãozinha também não vou lá. Mas com duas... ajeita-se a coisa.
Não pensei que a juventude fosse a minha pele para a vida inteira; contudo, assusta-me saber que o meu processo de envelhecimento implica outros, mais antigos do que o meu. Não me apetece nada pensar que terei de abdicar (sim, pensamento muito pouco altruísta) de determinadas pessoas que existem comigo há demasiado tempo. Tenho a certeza de que perdê-las será perder uma parte de mim, talvez a mais bonita. Pergunto-me... o que serei eu sem elas? O que serei eu sem a minha avó a dizer-me (ainda hoje o faz) para ter cuidado quando saio? Sem o meu avô a repetir-me nomes de actores que já ninguém se lembra? Da minha mãe a perguntar-me mil vezes pelo neto? Do meu pai a "queixar-se" da minha ingenuidade?
Não sei o que serei, porém, sei que desejo ter a capacidade para ser a minha avó a tomar conta da casa, o meu avô sentado a ver todos os filmes, a minha mãe na dedicação à família e o meu pai na gerência do que poderia ter sido, mas não foi.
Eu com eles sou mais eles e, por isso, mais eu!

quarta-feira, agosto 13, 2008

"A Kiss is Just a Kiss"

"A única linguagem verdadeira no mundo é o beijo."

Alfred de Musset




Klimt, The Kiss


Invenção antiga; aliás, como tudo o que realmente importa. O beijo é definido no dicionário como o acto de poisar os lábios em algum ser ou coisa em sinal de amor, afeição ou veneração. A palavra tem a sua origem no vocábulo latino basium.


A leitura do beijo não é simples, nem pacífica. Há que ter em atenção as variantes sócio-culturais que lhe atribuem uma infinidade de propósitos. Por exemplo, em França, no século XV, os nobres estavam autorizados a beijar qualquer mulher; já em Itália, se um homem beijasse uma mulher em público teria obrigatoriamente de casar com ela. Na Rússia, os homens cumprimentam-se com um beijo na boca. Em Portugal, trocam-se dois beijos no rosto (ou apenas um, se a morada corresponder a Cascais ou à Lapa; e se não corresponder, age-se como se correpondesse!). Os reis recebiam um beijo na mão. Já os esquimós beijam-se roçando o nariz no nariz do outro.
Por que estou eu com esta conversa toda?
Eu explico.
Apercebi-me de que o beijo, além de todas as matizes culturais e de intencionalidade que possui, significa coisas diferentes ao longo do nosso crescimento; não só para nós próprios como para quem nos beija. Assim, aos 12 anos, os beijos traziam consigo o prazer da experimentação inocente e despreocupada com o "depois". Nenhuma amiga pensou estar grávida por ter beijado alguém na boca, esses mitos urbanos existiam (sim, e continuam a existir) apenas nas páginas do consultório do amor da revista Maria. Aos 20, os beijos que se trocavam já faziam parte de uma relação adulta e, supostamente, funcionavam como a consagração de um amor sincero, que duraria para sempre. Chegados aos 3o, beijar alguém pode não significar um acto simples e descomplexado, que aos 12 ainda era possível. O "depois" chega a impor-se ao "antes"; às vezes, ainda nem sequer se tocou nos lábios do outro e já as permissas do "eh, pá, eu não estou apaixonado por ti", ou "eu não quero namoradas/os", assim como "estou numa fase complicada", nos atingem vorazmente sem que possamos usufruir do gesto que exige a movimentação de 29 músculos; que acelera os batimentos cardíacos, que vão de 60 a 150 por minuto, e que gasta em média 12 calorias. Isto para não falar das implicações emocionais envolvidas e que, em príncipio, oferecem uma enorme sensação de bem-estar.


Vamos lá ver se esclarecemos umas coisas; um beijo é apenas um beijo, os significados que se lhe atribui dependem de inúmeros factores. Agora, uma pessoa saudável não pressupõe que o beijo é um sinal claro de enamoramento ou um pedido de compromisso para a vida. Colocar sinais proibidos em territórios que nos propomos começar a explorar é ou não é ridículo?
É como se estivéssemos às portas da floresta amazónica, vestidos com calções e camisa do Coronel Tapioca, levando às costas a mochila com os acessórios que nos vão ajudar a descobrir um local mágico e ter uma cancela que nos proíbe de entrar. Eu sei que agora está na moda essa coisa da sinceridade. "Ah... digo-te isto porque quero ser sincero/a contigo." Vá lá... Estamos a enganar quem? Dizer que não se está apaixonado por alguém que acabámos de beijar ou referir que não estamos com vontade de namorar tem muito pouco a ver com necessidade de ser sincero. Sincero com quem? Consigo mesmo? Alguém pediu/exigiu essa sinceridade? Cá para mim tem a ver, isso sim, com a necessidade de desresponsabilização. Só que, deixem-me dizer, ninguém beija ninguém sem que esse acto acarrete um compromisso. Mesmo que ele dure apenas os breves momentos em que os lábios se mantêm unidos.
Como diria a música da banda sonora de Casablanca http://www.youtube.com/watch?v=F_bMFVDu9yo:

"You must remember this:
A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh.
The fundamental things apply
As time goes by.
And when two lovers woo, they still say "I love you,"
On that you can rely, no matter what the future brings,
As time goes by . . .
Moonlight an' love songs never out of date,
Hearts full of passion, jealousy an' hate,
Woman needs man and man must have his mate,
That no one can deny . . .
It's still the same old story, a fight for love an' glory,
A case of do or die, the world will always welcome lovers,
As time goes by . . . "

terça-feira, agosto 12, 2008

Shiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!

Resta dizer que vi o filme ao lado do silêncio (e que bem que me soube), que me sussurrou ao ouvido, só para que o silêncio fosse mais silencioso ainda: "It is better to keep your mouth closed and let people think you are a fool than to open it and remove all doubt." - Mark Twain

Dark Ledger



Não, não, não, não. O filme Dark Night, realizado por Christopher Nolan e sequela de Batman Begins, não me merece um comentário porque tem no elenco Heath Ledger. Ele merece-me um comentário porque, morto ou não (isso acaba por ser um pormenor que alimenta apenas os "abutres" do acessório), Heath fez de Jocker a melhor personagem do filme (de todos os filmes da série). A mais coerente. A mais equilibrada. A mais sincera. Isto, numa película, onde todas as personagens são mais do que boas. Não me surpreendeu. Já em Monter's Ball (2001) percebi que este actor tinha a capacidade de fazer o complexo parecer simples; percebi mesmo antes, quando, em The Patriot (2000), foi um Gabriel mais homem do que anjo. Por tudo isto, a sua personagem em Brockeback Mountain (2005) - Ennis del Mar -, trouxe-me tão só a confirmação do que eu suspeitava: Heath Ledger era um actor com alma.
Dark Night é um filme noir, não apenas estilisticamente, mas cromaticamente. O único vislumbre de luz aparece nas cenas em que participa Jocker e o branco-choque do rosto que esconde; ou que desvenda?! Tenho cá para mim que ele usa aquela máscara de tinta com o único propósito de revelar aquilo que realmente é. O que esperar de alguém que parece um monstro e age como um: monstruosidades?! Uma coisa é certa, ninguém poderá acusá-lo de defraudar expectativas; que é, afinal, o conflito interior que perturba os grandes heróis (sou ou não sou aquilo que os outros esperam que eu seja?), desde Batman a Spider Man, que, no fim de contas, os torna vulneráveis e falíveis. Jocker não erra. O seu mundo é o caos: "I choose chaos."



O mais assustador é que o desequílibrio e a maldade nele são tão viscerais que causam no espectador a higienização da sua loucura; para nós, ele chega a ser o único que possui a sabedoria total: "I'll show you: I now the truth", provando que as margens da bondade e da maldade são meramente ilusórias; o Homem pode ter os pés numa ou noutra, consoante as circustâncias lho exijam: "You either die a heroe or you live long enough to see yourself become a villain."

Heath morreu ainda com idade suficiente para se tornar um herói; o tempo encarregar-se-á disso mesmo. Não me parece mal de todo, uma vez que James Dean e Marilyn Monroe são uns desconhecidos para as gerações que acreditam que a televisão existiu sempre e que o Michael Jackson foi branco a vida inteira...

terça-feira, agosto 05, 2008

Da quantidade do amor

É frequente encontrar pessoas que me falam da sua incapacidade para perceber o que sentem por outras pessoas com quem se relacionam; e que a percepção sobre a intensidade (ou não) dos seus sentimentos apenas se efectiva quando a perda se torna inevitável ou irreversível. Já eu não costumo precisar desses artifícios para determinar o amor que sinto por alguém. A mim basta-me processar os ínfimos sinais que me são concedidos na vivência dos dias e das noites.
Hoje, por exemplo, eram 06.30 da manhã e já eu me rebolava na cama, com dificuldade em manter os olhos fechados. Acordei porque me debatia com um pesadelo violentíssimo: o Rodrigo tinha desaparecido na praia. As educadoras e os colegas que com ele partilhavam as actividades de tempos livres, numa escola qualquer, regressavam , mas nem sequer se tinham apercebido da ausência do Rodrigo.
É-me impossível descrever com finura os sentimentos experimentados naqueles segundos de vivência. O vazio provocado pelo facto do meu filho não ter regressado com os outros, como seria expectável, a claustrofobia que me assolou de repente, impedindo-me de respirar, a ansiedade que me constrangia o corpo e me limitava o raciocínio e, pior, o nome dele ecoado na voz daqueles que, como eu, o amam para lá de qualquer limite, trouxe-me de uma vez só a medida para determinar o quanto ele é importante na minha vida. Aqueles instantes, ou micro-instantes, foram tão reais para mim como estes que agora uso para teclar no computador as palavras que outros lerão mais tarde. Para mim, ficou bem explícito que o amor que sinto pelo Rodrigo não é mensurável pelas medidas comuns. O amor que sinto por ele engloba os quilos, os metros, os litros, os quilómetros e todas as medidas que não consigo definir.
Mais um sinal devidamente processado.