domingo, agosto 09, 2009

Reencontro

Sento-me na areia e desenho nela uma linha dividida ao meio por um traço. Essa linha representa-me, sou eu menos gente, menos mulher, menos empírica, mas eu. O traço está ali para demarcar um antes e um depois.
O mar tropeça na areia e traz um apetite voraz, os seus braços de espuma estendem-se pela linha do antes, apagando-a. Só o depois permanece. E ninguém sabe o que diz.

O final das férias obrigaram-me a um novo início. Não tenho braços de espuma capazes de devorar os antes que somados fazem os hojes da minha vida; ainda assim, o depois que há dias inaugurei não me deixa margem para duvidar de que um mais um é realmente dois e que a dois tudo tem um valor maior. Porque? (oiço-te a perguntar mesmo antes de te ouvir)
Porque a dois dividem-se as tristezas, subtraem-se as amarguras e multiplicam-se os prazeres (respondo-te mesmo antes de me perguntares).

quarta-feira, julho 22, 2009

Intervalo

Queria escrever... mas não tenho tempo: são as férias.
Gostava de dizer coisas... mas não tenho tempo: são as férias.
As férias também terão um fim e aí a minha voz terá som outra e outra vez.

Barcelona está lá, quieta, à minha espera. E eu não quero deixá-la assim, sem mim.

A todos os que me lêem, a todos os que me fingem ler, a todos os que gostariam de ler-me, àqueles que não me lêem, desejo umas boas férias...

terça-feira, julho 21, 2009

Ne Varietur

amor salgado. amor achado. amor vivido. amor latente. amor ardente. amor com gente.
amor meu. amor teu. amor nosso. amor connosco. amor convosco.
amor inteiro. amor ligeiro. amor sincero. amor liberto. amor cantado. amor logrado.
amor de mim. amor para mim. amor comigo. amor assim. amor assado.
amor de ontem. amor de hoje. amor de noite. amor de sempre.
amor vivido. amor sofrido. amor ausente. amor para sempre.
amor carrasco. amor borracho. amor fiasco. amor do tacho.
amor profano. amor insano. amor cigano. amor baiano.
amor fraterno. amor amigo. amor de escárnio. amor amor.
amor em mim. amor na vida. amor em ti. amor aqui. amor ali. amor em tudo.
amor que nasce. amor que morre. amor que esquece.
amor inteiro. amor verdadeiro. amor lotado. amor levante.
amor e só amor e tanto amor e amoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramor.

quinta-feira, julho 16, 2009

Sun... set

Embrulhada pelo sol da manhã a querer ser sol da tarde e sol da noite, fui.
Só não fui muito longe, não porque o sol da manhã me provocasse macerações na pele, mas porque o desejo de ter me provoca macerações na alma. E as feridas demoram o seu tempo a sarar, se é que saram definitivamente...

quarta-feira, julho 15, 2009

Eufemismos

Não me incomoda falar da morte, pensar na morte, admitir que penso na morte. Como não me incomoda dizer CANCRO ou SIDA ou TUBERCULOSE. E fico pior do que estragada - ainda que ame as palavras e o que se pode dizer e ocultar com elas - quando oiço isto:
- Morreu de doença prolongada.
O que é uma doença prolongada? Do que é feita? A que sabe? Tem cura? Não tem cura? Faz doer?
Pensem de mim o que queiram, mas eu falo na morte, na doença e na tristeza sem luvas de pelica; mexo, remexo, toco, retoco nessas realidades incómodas como o cheiro do lixo que se atravessa na estrada, apanhando-nos desprevenidos a voltar de um lugar qualquer.
Se vimos um pobre, viramos a cara. Se vimos um velho, viramos a cara. As coisas feias não têm lugar no nosso mundo. Vivemos cada vez mais à procura do eternamente belo, só que é precisamente por ser raro e breve e instantâneo que o belo tem valor estético.
Para quê eternizar o que durou sempre e apenas um instante?

segunda-feira, julho 13, 2009

Mon coeur

Ou é a máquina de lavar loiça que avaria, ou o carro que deixa de funcionar, ou o marido que nos troca por uma morena altíssima, com sotaque latino, e umas mamas perfeitas que nem se mexem com o andar, ou são os filhos que pedem tudo, exigem tudo, nos levam tudo sem um obrigado suspenso pelos lábios, ou são os chefes que pedem tudo, nos exigem tudo, nos levam tudo sem um esgar de reconhecimento no olhar, ou é a família que só se lembra que é família quando precisa de um favor ou da nossa presença numa qualquer festa sem importância, ou são os amigos que andam demasiado ocupados a ser amigos de tantos outros amigos e a sobreviver aos caos da vida de todos os dias, ou é a televisão que estupidifica mais do que solidifica, ou é o Governo, a Nação, o Estado que nos rouba de nós próprios e nos torna reféns de uma realidade que não existe nem nunca existirá, ou é o cão do vizinho que ladra sem parar, ou as crianças do bairro que gritam e pulam como se o mundo fosse acabar - irá, com certeza, mas não hoje, não agora - ou é o carteiro que insiste em colocar as cartas do vizinho na nossa caixa, apesar de avisado do facto, ou são as doenças a levar-nos a saúde e a juventude para um lugar distante, afastado do alcance das nossas mãos, ou é a preguiça a impedir-nos de ser quem gostaríamos e a deixar que nos contetemos apenas com o que somos, ou é a ambição do "ter" a corroer-nos por dentro, a fazer-nos olhar em volta desejando outro telemóvel, outra casa, outro carro, outra televisão, outro marido, outra mulher, outros filhos exactamente como aqueles que aparecem nos anúncios comerciais, ou é o tempo que não sobra e que, entretanto, é gasto com o que não importa, ou é isto ou a ausência de tudo isto... "E assim/ Nas calhas da roda/ Gira, a entreter a razão,/ Esse comboio de corda/ Que se chama coração." (Autopsicografia, Fernando Pessoa)

quarta-feira, julho 08, 2009

Time to DIE

E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como sei exactamente que a minha mãe, ao acordar, coça o corpo como se estivesse a tomar consciência da sua existência.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Assim como sei que o meu pai jamais admitirá um erro, uma falha, um engano.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como sei de cor os gestos que o meu filho faz antes de acordar ou o alcance do seu sorriso ou a lonjura do seu abraço.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Assim como sei que a minha irmã se entristece com a tristeza da vida.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como sei de cor de que palavras é composto o grito do meu sobrinho que antecede cada primeira vez no nosso encontro regular.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Assim como sei que o meu avô desconhece a forma correcta de pronunciar o nome dos actores mas pronunciando-o eu reconheço cada um deles.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como sei de cor a cor dos olhos da minha avó e o peso do seu amor.
E se eu dissesse que sei? E se eu dissesse exactamente isso, que sei? Se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como conheço a cadência dos meus passos antes deles acontecerem, como conheço os meus medos antes deles existirem, como conheço as minhas fraquezas e defeitos antes deles se revelarem.
E se eu dissesse que sei? Que sei exactamente como vou morrer?
Todos abanariam a cabeça em sinal de recusa, chamando-me louca com os olhos.