domingo, setembro 13, 2009

Prelúdio de uma despedida em violino

Violino. Piano. Saxofone. A ter de escolher, estes seriam os sons da minha banda sonora pessoal.
Detesto despedidas. Se posso, antecipo-me a elas e finto-as na curva. Antes da dita hora, já eu me despedi. Disse o adeus embargado na voz, filtrei a saudade que o tempo acentua e aprisionei memórias a que recorro em momentos específicos. As lágrimas que ficam após, a acariciar-me o rosto, são o apaziguamento da dor que veio antes, muito antes.
Oiço o violino e procuro entender o que diz. Com o piano já não é assim: desinteressam-me as mensagens que ele fala. Ao saxofone sou eu que tenho vontade de lhe dizer coisas, e mais vontade ainda tenho que ele as oiça e as entenda.

As despedidas, mesmo as pequenas, são indeterminadas. É impossível saber se a pessoa a quem dissemos adeus será a pessoa que reencontraremos no regresso. Seremos nós próprios os mesmos? Acredito que não.

Disto estou eu certa, quem desejamos reencontrar não é a pessoa que veio, mas tão só a que foi.

O som do violino. O som do piano. O som do saxofone.

Com sorte, ainda encontrarás um cabelo meu perdido no teu corpo. Se assim for, solta-o ao vento e deixa que todos os violinos do mundo te digam quem eu sou, deixa que todos os pianos se desinteressem por quem tu és e deixa, ó por favor, deixa que todos os saxofones te digam, como se a sua voz fosse a minha, mesmo não sendo, mas como se: bom-dia...

quinta-feira, setembro 10, 2009

Manifesto a favor do truca-truca

Tinha eu 7 anos e já na Assembleia da República uma mulher desancava num deputado pela imbecilidade dele defender a ideia de que o sexo seria apenas para procriar. Estávamos em 1982 e Natália Correia não deixava para depois o que podia dizer hoje:

"Já que o coito, diz o Morgado,
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo só pai de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração - uma vez.
E se a função faz o orgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado."

Natália Correia

Como é que uma candidata a primeira-ministra, 27 anos depois, pode ainda defender a ideia de que o sexo é para procriar e de que o casamento é a instituição dos heterossexuais?!

segunda-feira, setembro 07, 2009

Sleep-walkers

Sou sonâmbula. Há noites em que deambulo pelos meus sonhos, deambulando por minha casa.
Ontem retirei meticulosamente da jarra que está ao lado da minha cama, entre vários livros, umas flores secas avulsas que tenho há muito. Gostava de perceber por que fiz isso, qual o meu objectivo. Lembro-me apenas de acordar com uma dessas flores na mão e de procurar reconhecer o lugar onde me encontrava. Uma frecha de luz, vinda de outro quarto, resolveu a minha desorientação momentânea. As flores ficaram lá, caídas no chão do quarto...
Há alturas em que fico desorientada e não necessariamente quando estou a dormir. Por mais experiência que tenha coleccionado na relação com o mundo, há alturas em que me sinto uma criança com medo do escuro e dos monstros e de tudo o que não consigo explicar. E há tanta coisa que não posso explicar, nem a mim mesma. E por isso fico com estas perguntas todas por perguntar, e esta vida toda por viver, e este medo todo por enganar. E a quem quero eu enganar, no fim de contas?
O que não posso é ser sonâmbula e viver a dormir o sonho acordado da vida...

sábado, setembro 05, 2009

Manela 0 - TVI 1

Quando soube que José Eduardo Moniz ia deixar de ser director-geral da TVI, lembro-me de ter pensado imediatamente "sais tu agora, a Manuela sairá daqui a nada". E se me acho muito espertinha por ter pensado isto mesmo antes do "escândalo" suscitado pelo fim do cretino Jornal Nacional? Absolutamente. Aquele meu pensamento indica apenas que sou apartidária, apolítica e que, por isso, a minha análise resulta dos factos.
Um telejornal que tem uma apresentadora que não se coíbe de galvanizar as suas opções e de insurgir-se contra os que as têm diferentes; um telejornal que abre noticiários com acontecimentos relativos a programas de televisão como o Big Brother ou que participa em campanhas de assassinato político, não me parece um telejornal que salvaguarde a democracia, muito menos a liberdade de imprensa: "A liberdade não é eu poder dizer o que penso mas deixar os outros pensar diferente de mim".
Só os que se deixam manipular pelo que ouvem dizer é que podem pensar que por detrás do fim do Jornal Nacional está uma urdidura escabrosa do governo e, principalmente, de José Sócrates e não uma coisa mais simples como: "ó pá, o teu marido foi-se e com ele as costas que te aqueciam um lugar que não merecias por incompetência crónica"!

quarta-feira, setembro 02, 2009

Os meus lábios cor de azeitona lima II

28 de Agosto foi o dia em que escrevi a primeira parte deste texto. Hoje é dia 2 de Setembro e continuo com o raio dos lábios inchados?! Chiça, não mereço isto! Além de que com estes lábios não posso, nem se EU quisesse, sentir-me uma gaja, vá, minimamente capaz de ser fruto de algum desejo, nem que fosse conceptual.

A Margarida é uma Vénus confundida

Sou mulher. A dimensão que se inaugura sempre que constato tal realidade é imensa. Gosto de metade dessa dimensão, dispensaria a outra metade. Por exemplo, detesto as horas que gasto a depilar-me, independentemente da sensação de conforto que me traz durante os dias seguintes; detesto a história do mete tampão, tira tampão que a menstruação obriga - é cliché? acham? isso é porque nunca experimentaram a dança, deviam experimentar, ai pois deviam!; e gostaria de ser mais imatura que a maior parte dos homens que conheço para que o encantamento em relação a eles se prolongasse um pouco mais no tempo.


Há outra coisa que eu detesto, e que dispensaria no imediato, as crónicas da Margarida Rebelo Pinto no Sol, principalmente aquelas em que fala de banalidades, que são quase todas. Então a senhora escreve uma crónica à qual dá o nome de Marte e Vénus (uhhhh, que original) onde discorre sobre a inevitável objectualização da mulher pelo homem (leiam aqui) e, imaginem, de todas as fotos que aparecem dos cronistas do Sol, a Margarida é a única que tem direito a uma de corpo inteiro (vejam aqui), de perna cruzada e com olhar sensual. O que me provoca uma dúvida: ó Margarida, serão só os homens que fazem da mulher um objecto sexual vendável e apetecível?



P.S. Fiquei com outra dúvida, mas esta é mais banal, queria perguntar à Margarida qual o significado, naquele contexto, de gadjets.

terça-feira, setembro 01, 2009

200

Este é o meu ducentésimo texto e se isso for importante para alguém ou para alguma coisa, diria apenas que é importante para mim na medida em que este espaço nasceu de uma vontade muito própria de haver um lugar que, no limite, existisse apenas para meu comprazimento pessoal. Claro que dizer isto assim soa bem, mas não é totalmente sincero ou honesto. Ninguém que escreva, muito menos num blogue, escreve para si próprio ou para seu exclusivo comprazimento. Se o que se escreve não for lido, qual o objectivo da existência dessa escrita?
O Homem tem ânsia da comunicação e eu não sou diferente. Também a mim me apetece, ainda que dentro de uma lógica própria, e até egocêntrica, comunicar com o mundo o que sinto, penso e sou.
Se o mundo fica diferente sabendo o que sinto, penso ou sou? Não. Mas não é por isso que deixarei de escrever. Escrever serve-me, fica-me bem, ainda que 200 textos não sejam nada. Numa vida que parece ter já 200 anos.