(ao telefone)
Eu - Sim? Olá, bom-dia!
Alguém (que eu ainda não sabia quem) - Bom-dia. Como está? Fala a directora de turma do Rodrigo.
(nervos, aflição, suores frios - muito bem disfarçados, diga-se)
Eu - Ai sim? Já sei, quer dar-me os parabéns pela maravilhosa criatura que é o meu filho. Não?! Hunft... Bem me parecia!
"Se eu quisesse enlouquecia" é a primeira frase de um conto de Herberto Helder, do livro "Passos em Volta". Para mim, este "se eu quisesse" abre o mundo a infinitas possibilidades; deixa que a imaginação flua e que a vida se manifeste no entrelinhamento do mero desejo e do realmente acontecido. Entre uma margem e outra, escrevo.
quarta-feira, novembro 11, 2009
terça-feira, novembro 10, 2009
"estou feliz de morrer"
Não me venham falar em felicidade, em árvores plantadas no oceano; não me venham falar em amor, em sorrisos de ternura quando se pensa em alguém; não me venham falar de cumplicidade, de sexo, de plenitude.
Falem-me antes do caos que é a vida; do desmantelamento que o nosso coração sofre de cada vez que julga amar e ser amado; da desagregação e segregação de detalhes e de memórias que nos roubam a vontade e nos impossibilitam sermos mais com menos.
Falem-me do acordar doloroso de cada dia, dos detalhes espalhados pela casa: dos iogurtes com pedaços no frigorífico, dos calções e da t-shirt guardados na gaveta.
Falem-me da espera que se faz, mesmo que não se deseje, pela voz, por aquela voz em voraz ansiedade; falem-me das gargalhadas adiadas um dia, outro dia.
Não me venham falar que tudo passa. Porque tudo é demasiado para limitar-se a passar. Passará como passam os carros nas estradas, como passam as pessoas nas estações de comboio ou de metro?
De que marcas eram os carros? De que cores se vestiam as pessoas?
É que eu sei de cor a cor dos calções e da t-shirt guardados na minha gaveta. E sei a marca dos iogurtes com pedaços que apodrecem no meu frigorífico.
Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.
Cecília Meireles, in 'Poemas (1947)'
segunda-feira, novembro 09, 2009
Vida doméstica e domesticada
- Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee. Onde estão as minhas calças?
- Que calças?
- Aquelas. As que estiveram estendidas há duas semanas.
Calmamente, dirijo-me ao quarto dele.
- Precisas dessas calças em particular quando só aqui eu conto: uma, duas, três, quatro pares de calças?!
- Sim, mãe. Nenhuma dessas fica bem com as minhas botas. Eu quero aquelas.
- São sete da manhã, tens várias calças disponíveis mas queres aquelas que eu nem sei quais são! - já levemente irritada.
- Mas mãe, deixa-me explicar...
- Não, não há tempo para explicações, não podes atrasar-te, logo, começa a vestir-te.
- Mãe, encontra-me lá as calças. As outras não ficam bem.
- Possa, que chatice. Com tanta calça no quarto e ainda me chateias com umas que eu não vi, nem sequer sei quais são! - Muito irritada, já sem o levemente, começo a mexer na roupa que se encontra para passar.
-São essas, mãe, são essas. Podes passá-las?
- Aviso-te que é a última vez que te passo propositadamente um par de calças por capricho, ouviste bem? - apetecia-me ter-lhe gritado "ouvistes bem?", o "ouvistes" aqui tinha muito mais força.
Passei as calças dele a ferro e umas pretas, minhas. É que de todos os pares que eu tinha no amário, apetecia-me A-QUE-LAS.
Antes do Amanhecer ou Antes do Anoitecer?
Foi há muito tempo que um amigo me aconselhou ver o filme. Lembro-me de, na altura, tê-lo procurado e alugado no videoclube perto de casa, embora o filme, parece-me, não estivesse preparado para ser visto por mim.
Hoje dei com ele num canal de televisão e eis que personagens e intriga se deleitaram nas minhas mãos e, num ápice, se renderam ao culto da minha pessoa. Como tudo o que vi fez um eco tão profundo nos meus sentimentos e emoções, levantei-me do sofá e fui procurar ver a sequela, que sabia existir.
Houve um processo de identificação tal com a personagem feminina que determinadas falas podiam muito bem ser minhas, além de ela ser também do signo Sagitário e ter 33 anos:
"Ultimamente os casais andam tão confusos... Deve ser porque os homens precisam sentir-se essenciais e já não se sentem. Há muito que têm na cabeça a necessidade de ser o sustento da casa. Eu sou uma mulher forte e independente na minha vida profissional. Não preciso de um homem que me sustente, mas continuo a precisar de um homem que me ame e que eu possa amar."
Os filmes?
Before Sunrise e Before Sunset.
vem passear com o meu telefone, querida
um casal passa por mim. primeiro para cima. minutos mais tarde, para baixo. ele, de telefone em punho, viceferava contra alguém que eu não via, mas adivinhava. ela seguia um pouco atrás, muda. atirada contra a multidão que passava, em correpio de fim de tarde. ele embrenhado no telefone e naquela presença que era trazida apenas pela linha telefónica. caminhavam os dois como se caminhassem lado a lado, embora não caminhassem lado a lado. ela não fazia parte da conversa, nem da existência, que acontecia entre o ser que era apenas voz e o marido? namorado?.
ainda que não seja estranho encontrar pessoas que falam ao telefone, ignorando aquelas com quem se encontram fisicamente; aquele casal causou-me uma impressão forte e precisa: deixando-me a pensar...
sexta-feira, novembro 06, 2009
Eu/ o silêncio/ a vida
A escrita não me tem acontecido e eu habituei-me a respeitar este silêncio que as palavras não ditas me trazem. Sento-me ao colo delas, num embalo de ternura, e aguardo que a vida passe, que o tempo chegue e que o silêncio grite tudo o que eu não posso mais ouvir: tenho tanta vontade de voltar à escrita, voltando a mim...
domingo, novembro 01, 2009
As coisas apagadas não voltam mais
Há coisas que só apagadas se resolvem. Há que saber usar a borracha de vez em quando. Sem medo. Sem culpa. Sem nada. Apagar para esquecer.
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