segunda-feira, janeiro 11, 2010

O meu primeiro fato de surf

Há dias em que me sinto perdida na incapacidade de reagir, de transmitir bem o que me vai no pensamento. Estou certa de se dever ao facto de já não saber como se faz, como se permite que alguém chegue e cuide de nós. Não costumo ser cuidada, é mais frequente ser a cuidadora, é nesse papel que sei movimentar-me bem.
Ofereceram-me o meu primeiro fato de surf e na surpresa da ocasião e na incerteza do merecimento, fiquei com a língua enrolada na garganta e o silêncio a pesar-me nas palavras. Obrigada sabia-me a pouco. Na verdade, qualquer palavra dita na altura soava-me a ninharia.
Resta-me esperar que o não-dito tenha sido suficiente para marcar a ternura imensurável do momento: o sorriso dos meus lábios, a profundidade do meu olhar abraçaram aquele momento e retiveram-no na retina da memória, na caixa com o rótulo "coisas que não esquecerei nunca nem que o Alzheimer me apanhe na curva da vida".

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Benzo o quê?

Há expressões na língua que me deixam espantadíssima, como a "benzó Deus". É utilizada por familiares a cheirar a mofo e quando estão na presença de uma criancinha adorável. Ainda ninguém me explicou a verdadeira utilidade desta expressão, mas eu não desisto, um dia a coisa dá-se.

Até eu decidir

Tomei uma decisão, depois de ver uma grua gigante, na rotunda de Almada, e uma série de gente a preparar-se para desmontar os efeitos natalícios: este ano a árvore de Natal vai continuar montada lá em casa. Se adoro sentir o conforto daquelas luzinhas a piscar, quando chego a casa, depois do trabalho, por que hei-de prescindir disso só porque alguém disse que se deve guardar a árvore após o Dia de Reis? O meu Natal vai prolongar-se por muito mais tempo. Até eu decidir.

Lapsus Linguae

A troca de um nome por outro pode não ter qualquer importância, mas apenas para quem desconhece os estudos de um tal Sigmund Freud. Segundo ele, um disparate aparente manifesta não uma desatenção, um descuido, mas um desejo reprimido do inconsciente. É por isso que os actos falhados são uma matéria tão interessante, a que eu gostaria de dedicar algum tempo, se o tivesse.
Sair de casa para despejar o lixo e entrar no carro com o mesmo pode dizer mais de nós naquele instante do que uma reflexão atenta e consciente.
A censura não é apenas uma posição ideológica ou política. Nós somos os nossos censores mais implacáveis e intolerantes até que, em determinados momentos, o inconsciente se liberta e deixa, de forma disfarçada, as pulsões ou impulsos se exprimirem. Os actos falhados são o modo, por vezes grotesco mas nunca doentio, de os conteúdos e representações inconscientes vencerem a barreira da censura.Ou seja, vencer-nos a nós próprios - uma guerra que eu tenderia a chamar de fatricida.




quinta-feira, janeiro 07, 2010

A Corrida Mais Louca do Mundo

Robert Downey Jr. é o sustento do Sherlock Holmes. Não fora ele e o filme de Guy Ritchie seria um sucedâneo de clichés cansativos e aborrecidos; ou transformar-se-ia em mais um filme de heróis: já existem os suficientes nesta era em que até os de banda-desenhada regressam aos magotes para nos torturarem o juízo. Jude Law não sustenta o filme, mas sustenta o Holmes. Este Watson acaba por ser o contra-ponto necessário ao estilo "génio tresloucado" do outro - Jude é a bengala do desequilíbrio funcional do detective-maravilha.
Ir ao cinema em dias de semana é sempre uma aventura para mim. Saio do trabalho a correr, vou buscar o Rodrigo a correr, preparo-lhe o jantar a correr, saio para o cinema a correr, compro os bilhetes a correr, engulo qualquer coisa a correr e vejo o filme a correr. Com tanta correria, ainda me torno numa maratonista  das idas ao cinema em dias de semana. Deviam inventar uma prova qualquer deste género, para ver se eu sentia, finalmente, o gostinho da vitória.
Só não corri para a cama. Não estava com vontade de prolongar despedidas.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Ora dá cá um e a seguir dá outro

Descobri hoje - sou tão boa a descobrir coisas - que as teclas* que se usam para escrever kiss são as mesmas que se usam para escrever lips. Ao mesmo tempo que considerava ser esta a minha descoberta  mais poética : é que um beijo não se faz sem lábios...


* Isto se estivermos a falar de teclados simples ou de telemóveis simples. Ah, claro, e do uso da escrita inteligente. A possibilidade destas descobertas acontecerem terminaram com os telemóveis de última geração, já que nestes cada letra corresponde a uma única tecla.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Lepidópteros* na barriga

Já muito foi dito sobre a sensação "lepidópteros na barriga". Não é sobre isso que eu quero falar. Fico-me apenas com os lepidópteros e a barriga em separado.
Cresceram-me asas, nos últimos dias. Não têm escamas, nem libertam odores, mas permitem-me voar. E se me dão permissão para fazer coisas, eu faço-as; pelo que tenho voado muito. Voo encarpado nos sentimentos próprios e também alheios, que isto de ter sentimentos sozinha é uma seca. Não estou ainda muito certa, ainda assim, sinto-me segura o suficiente para dizer que estas asas têm o tamanho perfeito. A alinhação ideal. São asas com contornos de liberdade: fortes, seguras. Com umas asas destas, só me apetece descolar.
A barriga... bem... depois das festas todas, a barriga precisa de afinações rápidas. A começarem imediatamente com as aulinhas de ginástica ao final do dia. Argh! Esta coisa de ser magra tem do que se lhe diga. A verdade é que se a barriga estiver demasiado cheia, lá se vai a sensação de "lepidópteros na barriga";  se não há espaço para a comida não haverá para os lepidópteros!

*Lepidópteros: nome científico dado às borboletas. Do grego, lepis que significa escama e pteron que significa asa. As borboletas têm escamas nas asas, daí a razão do nome.