quarta-feira, janeiro 27, 2010

Melancolia da escrita

Há dias em que acordo com letras nos dedos, em que a boca se desbraga em palavras que não são palavras de dizer, são antes palavras de escrever. E se não tapo a boca com as mãos, as palavras saltam, aos molhos, com vontade própria. Ainda assim, de boca tapada, as palavras de escrever escorrem-me por entre os dedos, pelas fissuras de pele e carne que as mãos contra a boca deixam a descoberto. E se, por acaso, a rotina das coisas por fazer me impedem as palavras de escrever, o meu corpo revoluciona-se, embarga-se e embriaga-se de asco, de nojo, de ódio.
Não me impeçam as palavras de escrever. Não me impeçam de dizer escrevendo, porque a alternativa entre morrer e viver faz-se, em mim, na escrita, pela escrita, sendo escrita. Fora disto, sou apenas um corpo em putrefacção perene que se arrasta pelos dias como assim pelas noites.

terça-feira, janeiro 26, 2010

E se a vida toda coubesse num piano?

Chopin. Nocturnos.

Só assim a vida pára.
Não há o cansaço de todos.
Não há a correria de sempre.
Não há as frases costumeiras do "antigamente é que era bom".
Não há trabalhos intermináveis que se acumulam na secretária.
Não há medo do futuro.
Não há dúvidas de amar tudo, como nunca, como sempre.
Não há gritos de impaciência em manhãs onde o tempo nos escapa.
Não há  trânsito a paralisar-nos os movimentos.
Não há colegas irritantes, com ares superiores, a dizer-nos o que é bom e bem feito.
Não há passado que nos ameace.
Não há vida senão naqueles acordes em piano: Op. 37.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Morning, happy morning

manhã cinzenta?! eu só vejo brilho e luz.
chuva?! onde? quando? se hoje acordei cristalina, como que aquecida pelo sol que todos insistem inexistir.
frio?! só sinto uma névoa de calor imenso a nascer-me por dentro, para dentro.

a felicidade é como um manto que cega; não como as cegueiras comuns. é mais como as cegueiras extraordinárias, aquelas que nos possibilitam ver o que os outros não vêem ou até como aquelas que nos permitem ver o que os olhos normalmente evitam.

manhã colorida, a minha.
sol luzidio e luzidente, só para mim.
calor que abraça, que envolve a vida, porque te sinto sozinha?

quinta-feira, janeiro 21, 2010

O passado no presente

Ao chegar à escola, ainda no carro, parados numa fila interminável de outros carros, que tentavam como nós aproximar-se do portão da escola; olho para o Rodrigo e, nesse relance de olhar, dou conta que traz apenas uma t-shirt por debaixo do casaco. O meu coração gelou.
Com uma calma subtil, aprendida nestes anos de maternidade, mandei-o olhar para o termómetro do carro e dizer-me os graus que este indicava:
- Onze graus, mãe - respondeu-me serenamente.
- Estás proibido de vestir apenas t-shirt para vir para a escola.
- Mas eu tenho casaco.
- O casaco não é suficiente. Ainda por cima, estiveste doente a semana passada: três dias, lembras-te? - não se lembrava, uma semana, na cabeça de um adolescente, equivale a um ano.
- Mas, mãe, eu não tiro o casaco - promessa pueril, inocente, mas impossível de cumprir, pensava eu, enquanto argumentava a sua ideia descabida de vir para a escola, em pleno Inverno, de t-shirt. Mesmo que seja a dos Guns N' Roses.
Assim que ele saiu do carro, satisfeito por poder mostrar a sua t-shirt fashion, voltei atrás uns aninhos e vi-me no lugar dele, em pleno Inverno, de camisola de gola alta, sem mangas, e parece-me ter ouvido também os gritos da minha mãe, que me dizia, quase a espumar da boca:
- SÓNIA PAULA, quantas vezes te disse que não quero que vás de braços ao léu para a escola com este frio?!

segunda-feira, janeiro 18, 2010

A Corrida Mais Louca do Mundo - parte II

Downey Jr. ganhou ontem o Globo de Ouro para Melhor Actor no género comédia no seu papel de Sherlock Holmes. Estou certa de que o Expresso ou o Público fariam bem em contratar-me para fazer crítica de cinema. Seria uma aposta ganha, estou certa - digo isto de forma absolutamente imparcial e objectiva, outra coisa não seria de esperar...

último-para-todo-o-sempre-amor

"O homem não tem uma única e mesma vida; tem várias (...)"

Chateaubriand citado por Paul Auster em  O Livro das Ilusões

Perguntas-me se amei sempre que amei ou se descubro o amor  agora, contigo. Não acredito em amores únicos, mas acredito em amores irrepetíveis. Pode e deve amar-se todas e tantas vezes que conseguirmos, mas nunca da mesma maneira. Jamais da mesma maneira. Pelo que amar-te a ti, agora, é como se fosse pela primeira vez. Tudo é descoberta antiga. Tudo é amor renascido - como as alcachofras depois de queimadas.
Se não sabes, eu digo-te: o homem não tem um único e mesmo amor; tem vários e é nisso que reside a sua riqueza interior.
O melhor que te posso dizer, se me ouvires, se procurares ouvir-me, é que podes não ter sido o meu único-primeiro amor, ainda assim, eu gostaria que fosses o meu último-para-todo-o-sempre-amor. É aqui, neste pensamento convulsivo de permanência, que reside a minha miséria ou o início de todas as minhas ilusões.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Pista com obstáculos

A A5, em dias de chuva, é uma pista de 25 quilómetros com obstáculos. E quem ousar passar ao lado desses é imediatamente desclassificado. Deve ser essa a razão que motiva os automobilistas a observarem demoradamente cada um dos obstáculos na pista: carros acidentados e/ou carros avariados. Ignorá-los é que não, até porque se deve aprender sempre com os erros e as desgraças dos outros. Além disso, fila que seja digna desse nome quer-se é extensa e prolongada, com direito a emissão televisiva e a helicópetros a sobrevoarem a área.

Ontem tentei dar um pulinho a Almada, fazer uma reunião rápida e regressar num instante a casa, já que tinha o meu filho doente à minha espera. Ingenuidade minha considerar que conseguiria fazer uma proeza deste tamanho quando a chuva não dava tréguas e se mantinha irreprimível no seu devir. Não me lembro quanto tempo demorei no ir e no vir - tendencialmente apago as coisas menos boas que me acontecem - mas sei que demorei mais do que devia. Como é que eu sei? O Rodrigo ligou-me, desesperado, umas cinco vezes para certificar-se de que eu não iria abandoná-lo em casa, doente.