Não sei amar metades. Ou amar por partes. Ou ainda amar alternadamente. Não sei amar devagar. Com calma. Sem pressas. Ou amar a medo, com a cabeça ligeiramente inclinada para trás, a defender-me do porvir.
Sou exagerada no amor, como em tudo. Estou mais do que certa de que este é um tique de genética familiar. E como todos os tiques, ele é em mim e quase já nem dou pela sua existência...
Foi num dia comum de Fevereiro. Não estava excessivamente frio. A minha casa, por ser nova, encontrava-se vazia. Aos poucos, pensava, ela há-de ganhar vida e alma.
A minha irmã era uma barriga enorme, prestes a rebentar a qualquer hora. E essa hora não tardou demasiado. Foi só o tempo de descarregar as compras feitas no IKEA e correr para levá-la para a maternidade.
Vê-la sofrer mata-me por dentro, viajo quase instantaneamente para a casa da nossa infância, onde estamos as duas sentadas à mesa, ela numa ponta, eu na outra. Há palitos dispostos e eu incito-a a soprá-los. Com olheiras profundas e uma respiração ofegante - o som mais vivo é o da sua respiração aflitiva - ela sopra nos palitos com o vigor que a sua frágil saúde permite. Eu bato palmas e rio, procurando que a minha alegria a contagie também. Eramos apenas duas crianças a tentar escapar à voracidade da asma que lhe consumia muitos dos dias e das noites.
Voltamos à maternidade e às dores que o seu rosto e a sua voz revelavam. Levaram-na para dentro e não mais a vi. E nunca mais voltei a vê-la como antes. A minha irmã deixou, nesse dia comum de Fevereiro, de ser apenas a minha irmã. Desde essa altura, ela é a minha irmã e a mãe do meu sobrinho.
Desconheço qual das duas amo mais, se a irmã, se a mãe. Exagerada como sou, devo amá-las a ambas com a mesma força e a mesma verdade.
No dia 18 de Fevereiro de 2006, a minha irmã foi mãe do meu sobrinho e o meu tique de genética familiar ganhou novas razões para existir - mesmo sem delas precisar.