quarta-feira, março 20, 2013

A felicidade tem dias

Acordo, devagar, de um sono que não foi profundo.
Ainda encadeada pela luz, avanço pelo dia dentro. Há coisas que mudaram de sítio e pessoas que não moram mais nas casas de sempre.
Não me lembro se sonhei ou o que sonhei.
Estou sozinha, sei-o.
Socorro-me de memórias, do embalo de músicas que já não oiço porque também já não mas cantam.
Acordei diferente, sinto-o, ainda que o não veja.

Gostava de ter tempo para acordar um pouco mais devagar.

O sol não é o mesmo. As pessoas estão também elas diferentes, apesar de parecerem as mesmas.
Um dia a mais no calendário do tempo.
Um dia a menos no calendário da vida.
Não voltaria a dormir, se eu pudesse.

Se eu pudesse reuniria o antigamente, com o agora e com aquilo que  há-de vir e dava-me por acabada.
Por acabar está a felicidade, mas também não é certo que esta deva ter um fim. Ou um qualquer início.

Voltei. Esperemos que também o resto volte para mim.

Devagar. Com o sol a bater-me nas pestanas reflectidas na janela do carro em andamento.

 Estou aqui e não poderia deixar de dizê-lo.

sexta-feira, junho 08, 2012

Vamos Lá Perceber as Mulheres, Mas Só Um Bocadinho

Muitos tentaram.
Raros o conseguiram.
Nem mesmo as mulheres para se perceberem a si mesmas...

Vamos Lá Perceber as Mulheres, Mas Só Um Bocadinho é um monólogo interpretado pela psicóloga clínica, Marta Gautier, que está mais de duas horas a interagir com o público numa peça em que ninguém é actor. Não há ficção. E também não há cenário, pois, na verdade, aquilo não é teatro. Embora o espectáculo seja apresentado na sala de um teatro - no meu caso, no São Jorge - bem poderia ser em outro qualquer lugar. Desde que íntimo. Próximo. Confessional.
Mais do que entretenimento, ali a terapia desenvolve-se através - e por causa - do riso. As pessoas riem-se não só de si, dos seus, como também dos outros e, o melhor de tudo, com os outros.
Encenando pequenos episódios domésticos, Marta Gautier consegue iluminar aquilo que há de mais absurdo no ser humano - e não apenas nas mulheres.
Demasiado referencial, demasiado literal, demasiado mimético, falta ao espectáculo a dimensão teatral que permite o sonho, o devaneio, a liberdade. Ainda que no epílogo haja a tentativa (não conseguida) de resgatar as pessoas da sua comédia doméstica para as enfaixar contra a poesia da vida.
Não se dá pelo tempo passar, mas também não se dá qualquer mudança interior que a arte, tantas vezes, impõe.

segunda-feira, junho 04, 2012

A Dúvida é o que sempre foi: dúvida

Durante muito tempo - tanto que nem me lembro quanto - considerei que não queria ser mãe novamente. Mas a vida não se compadece com predeterminações arriscadas e definitivas e fez-me grávida, 15 anos depois da primeira vez.
Uma gravidez, ainda assim, não acontece do nada - ou não deveria acontecer. Há um contexto que permite que ela se deseje e, depois, se concretize.
Esta não foi diferente. Primeiro veio o amor e, logo depois, a certeza de querer prolongar, para fora de mim - de nós -, esse amor.
19 semanas. Estou grávida de 19 semanas.
A minha barriga cresce, devagarinho. Comecei a sentir o bebé, ainda que seja qualquer coisa muito incipiente.
Sinto-me cheia de dúvidas e, sobretudo, de dúvidas: se estará tudo bem, se é saudável, se a dor X ou Y é normal, se vai morrer, se...
E não há literatura ou voz médica que acalme e silencie estas dúvidas. São elas que me garantem que, às 19 semanas, eu já sou mãe deste bebé que cresce dentro de mim, comigo, para mim.
A grande - talvez a maior - tarefa da maternidade/paternidade é aprender a viver com dúvidas: estará bem, ficará bem, é feliz, será feliz.. E, nos intervalos dessas dúvidas maiores e existenciais, desfrutar do bem que sabe participar na formação de um ser humano que se deseja ter tanto de nós quanto ser mais do que nós, maior do que nós, diferente de nós - ser nós, sendo ele mesmo.
Estou feliz.
Quero vê-lo.
Abraçá-lo.
Cheirá-lo.
Pegar-lhe ao colo e embalá-lo nos meus braços o tempo que ele deixar. Para mim, será sempre o tempo da (minha) vida toda.

quinta-feira, maio 24, 2012

No bairro do amor há mentiras que não são minhas nem tuas mas de quem as apanhar

Há momentos de esquizofrenia incontrolável, em que o teclado não chega para a quantidade de palavras que tenho para dizer. Outros há em que o teclado me sobra nos dedos e as palavras se silenciam.
Reparei que fez hoje exactamente 30 dias desde a última vez que escrevi aqui, no meu lugar de intimidade e segredo.

Muitas coisas se passaram, entretanto. Não só em mim, comigo, mas também com os outros, comigo ou sem mim.
Morreram pessoas.
Morreram-me pessoas.
Houve viagens que se fizeram e outras que ficaram adiadas.
Segredos que me foram revelados e segredos que revelei.
Houve mentiras ditas como se fossem verdade. São estas as mentiras mais mentireiras, aquelas que as pessoas desejam incontrolavelmente que sejam a verdade.

Nunca me apercebi da curiosidade que suscito; vejo-me como uma pessoa vulgar, sem qualquer interesse relevante, e espanto-me de cada vez dou conta de que o meu nome é invocado por pessoas que nem sei bem quem são.
Sabem o nome dos homens com quem me deito, determinam os pais dos meus filhos - que variam consoante os gostos e a imaginação de cada um -, referem as actividades dos meus tempos livres, adivinham os meus medos e os meus desejos.
Não sei se ache graça. Se me ria. Se me espante.
Não sei se hei-de mandar as pessoas à merda.
Ou, talvez, dizer-lhes: "Vão-se foder e metam o nariz na miséria que é a vossa vida própria."
Não sei...
Talvez me ria. Talvez me ria às gargalhadas e pense: "Vão-se foder."
Sozinhas porque desconfio que não terão quem as queira acompanhar.

terça-feira, abril 24, 2012

Ainda eu não era nascida

Não tinha ainda nascido quando se deu o golpe de Abril.
Não havia eu, nem projecto de mim, quando a "Revolução"aconteceu em Portugal.
Mas não é por isso que não entendo o seu valor, a sua importância. É certo que será um entendimento romântico, talvez até estilizado, mas não é por isso que deixa de ser entendimento. 
Entendimento é entendimento.
Não será necessário passar por uma guerra para rejeitá-la. Ou morrer para não querer morrer. Logo, talvez não seja determinante ter vivido o fascismo para desprezá-lo como forma de organização política, social ou cultural.

Em 1974, havia gente a lutar por valores mais dignificantes do que o déficite, rating e outras coisas estranhas e de difícil percepção - pelo menos para uma parola, como eu.
Em 1974, a liberdade de pensamento e de expressão eram o mote das cantigas que se entoavam nas ruas e das bandeiras que se erguiam no ar. Ou eu imagino que assim fosse.
Antes de 1974, eu não podia estar aqui a escrever textos. Pelo menos textos que não fossem elogiosos do sistema, das pessoas que compunham o sistema - como se de um ramalhete se tratasse.
E agora eu posso. 
Eu posso e faço-o. 
Cada palavra que escrevo é a confirmação da minha liberdade. 
Da minha.Porque é impossível que exista apenas uma. 

Antes de 1974, seria impossível haver gente a dizer na rádio ou na televisão que, por discordar das políticas do governo, não iria assistir às comemorações oficiais do 25 de Abril. 
E agora podem.
Podem e fazem-no.
E há vozes que os apoiam. E há vozes que os criticam.
E a pluralidade de opiniões acontece. 
O debate dá-se.
Tudo porque, um dia, ainda eu não era nascida, houve gente que ousou mais do que ser e ajudou a contruir o sonho das liberdades. 
Festejando ou não. Comparecendo ou não nas comemorações oficiais, Portugal participa todos os dias naquilo que é o âmago de Abril: dizer o que se pensa quando se pensa no lugar em que se pensa.
Mesmo que hajam uns com mais direito a pensar do que outros.

quarta-feira, abril 18, 2012

PorTITANICal

Acho que as pessoas andam distraídas daquilo que realmente importa.
E o que realmente importa não poderá ser a morte anunciada da Maternidade Alfredo da Costa nem as caçadas ao elefante do rei  (vai em minúscula para ser fiel à grandeza do monarca) de Espanha.
Eu sei que é importante, de vez em quando, estupidificarmo-nos em frente à TV, até porque, muitas vezes, as matérias interessantes, cultas, inteligentes, criativas, não são suficientes e a nossa consciência (ou cérebro) precisa de se entreter com outro tipo de actividades, ainda assim, não posso deixar de me espantar com a onda de solidariedade humana que nasceu à volta da Alfredo da Costa nem com a onda de indignação gerada à volta das caçadas de elefantes do rei (mantenho a minúscula para ser coerente) espanhol.

Num país à beira do colapso, em que, semana após semana, são anunciadas pelo governo (uso a minúscula para demonstrar a pequenez dos que nos governam), eleito pela maioria dos portugueses (no qual orgulhosamente me excluo), medidas que revelam, acima de tudo, falta de honestidade e transparência política, há um povo entretido com o fecho de uma maternidade (inegavelmente histórica) e as caçadas de um rei moribundo.

O atraso de 2 anos na reposição do 13.º e 14.º meses nos salários dos funcionários públicos; a proibição das reformas antecipadas, o aumento de quase 7% do gás natural (que representará, em 2012, o segundo aumento); o  sucessivo aumento do preço dos combustíveis; o aumento sem precedentes do número de desempregados; a intenção de aumentar a idade da reforma sem antes reformar a mentalidade dos empregadores que continuam a desvalorizar colaboradores com mais de 30 anos; a constante ameaça (que não passará de mera ameaça, uma vez que o medo é o melhor amigo na guerra da ignorância insane) da falência da Segurança Social; o débil e confrangedor Sistema Nacional de Saúde, a verborreia institucional do Primeiro Ministro; a morbidez do ensino superior, todas estas questões deveriam ser discutidas abertamente pelos portugueses e a indignação deveria resultar daquilo que as mesmas suscitam ou fazem advinhar.

Não podemos andar à deriva no Botswana ou na Rua Viriato, em Lisboa... corremos o risco de afundar, sem antes embatermos num icebergue de razóaveis dimensões.

quarta-feira, abril 04, 2012

Prisão sem grades

Fechada.
Encerrada no meu próprio mundo cor de rosa.
Conheço de cor os detalhes de cada parede branca cá de casa. Os leves riscos pretos, aqui e além, marcam uma passagem mais apressada, um objecto arrastado, os saltos esquizofrénicos do cão.
Enfadonhos e previsíveis: os meus dias.
Às 7 acordo. Fico deitada a tentar perceber os centímetros que a barriga cresceu. Não cresceu tanto como eu gostaria.
Às 8 é hora de dar o Zoref ao Rodrigo; apanhado, nas férias da Páscoa, por uma pneumonia.
Às 9, o pequeno-almoço. 
Das 9 às 13, a invenção dos dias: leituras, escritas, telefonemas feitos e atendidos.
Almoço: comida ingerida mais uma vez.
Às 14, o descanso de nada. 
Às 15, a televisão acesa e o zapping sucessivo: tenho dedos imparáveis e fome de qualquer coisa que a televisão não consegue saciar.
16, 17 e 18h:  lanche; pão com qualquer coisa e leite. Vitaminas. Sais minerais. Vida a necessitar de consolidação.
19h, a preparação para o jantar. Ementa de hoje: polvo cozido. A mãe faz. A mãe que, ansiosa, assiste ao desenrolar dos acontecimentos últimos e procura espantar o medo com comida.
Digo-lhe "Mãe, não precisas de preocupar-te. Nós fazemos o jantar." Mas entendo que, para ela, esse gesto seja o seu remédio para afastar o medo e dizer-me "Gosto de ti".
20h,de novo, o Zoref - antibiótico administrado de 12 em 12 horas, para que não hajam falhas, o alarme telefónico. Nunca fui mãe de remédios. Ou boa mãe de remédios. Esqueço-me deles. Corre bem nos primeiros dias, depois esqueço-me da hora. Há coisas que não mudam. Esta não mudou.
 20h, o jantar: igual ao lanche, que já fora igual ao almoço e igual ao pequeno-almoço - máquina ingeridora de alimentos.
Se fosse quinta, que não é, é quarta, seria dia de Anatomia. Gosto dos dias que são de Anatomia. Há um instante de mim que é prenchido por aquelas histórias ficcionadas.
Hora de dormir. Fechar os olhos e imaginar outro mundo cor de rosa, longe, longe, longe, longe, longe daqui. Com as mesmas paredes.
Os mesmos riscos pretos.
A mesma mãe. Filho. Namorado.
A mesma Anatomia.
Livre.