terça-feira, setembro 30, 2008

O sentido trágico

Acho que foi assim que entrei dentro da sala de aulas, talvez tenha sido assim que olhei para eles sentados à minha frente, ou minutos depois, quando já tinha as mãos completamente sujas do pó do giz, senti nesses momentos aquilo que procuro ignorar a maior parte do tempo: que a minha vida só ganha uma dimensão verdadeira ao vestir a pele de professora de português. Não é que me sinta um peixe fora de água na vivência do meu quotidiano, nem pensar nisso; é apenas ter a noção de que a minha vocação cumpre-se ali, a ensinar.
Ando extraordinariamente cansada e o extraordinário tem aqui o sentido literal de "mais do que o normal", a verdade é que não podia deixar escapar esta oportunidade, mesmo que me obrigue a uma dedicação personalizada. Os materiais são todos pensados e criados por mim, do zero, uma vez que a bibliografia existente é insuficiente e, não raras vezes, pouco profícua. No sentido oposto, diria que as conquistas que vou fazendo; melhor, que eles vão fazendo, possibilitam-me uma sensação de vitória mais ardente e apaixonada.
Um barco acaba de deixar na água a marca da sua passagem, um risco indelével, pouco perceptível na distância. Se eu tivesse de descrever o teu efeito em mim (que não tenho, mas quero) diria que tu és o barco e eu sou a água. Tu deixas-me, ó asa-de-corvo, a herança indelével e eu, como resposta, permito que a espuma das minhas águas enfeitem o teu percurso, tornando-o mais belo.
É engraçado, com uma preponderância trágica, que eu não possa desenvolver a minha acção profissional no sentido da minha formação universitária; é curioso, também com uma preponderância trágica, que os professores sejam os indigentes das profissões liberais e é sobretudo admirável, com um sentido trágico total, que eu mantenha a convicção de outrora - e alguma esperança também - de que o meu lugar é dentro de uma sala, a ensinar e a aprender, a ser cada dia mais velha junto daqueles que serão, em mim, cada dia mais novos.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Regresso aos bancos da escola

Estou nervosa. Estou ansiosa. Estou ansiosa e nervosa, tudo ao mesmo tempo. Sinto-me frenética, exausta e insegura. Quero muito regressar. Mas tenho medo do regresso. 17 caras. 17 rostos. 17 histórias. 17 nacionalidades e línguas também. Estarei à altura? Conseguirei eu ser a transmissora ideal da língua e da cultura do meu país?
Estou nervosa, frenética, ansiosa, exausta. Estou expectante também.
17 jovens. 17 maneiras de ser.17 pessoas. Eu sou apenas uma, mas espero que o amor ao ensino me faça ganhar asas e voar de encontro ao sucesso que será ouvi-los dizer, pela primeira vez: "Olá, professora!" Nesse momento, nesse exacto momento eu serei novamente a jovem idealista que saiu da faculdade um dia, com os livros debaixo do braço, acreditanto que as escolas e os seus alunos seriam a matéria dos seus dias vindouros...
Às 18.00 horas tem início o Curso Intensivo de Língua Portuguesa para alunos Erasmus da UTL. Eu sou uma das docentes contratadas.
P.S. Se o post tiver erros, perdoem-me, mas o meu corpo e o meu cérebro estão a mil e nem sei bem onde!

quarta-feira, setembro 24, 2008

Haverá mulheres mal-amadas?

Mariela Michelena é psicanalista em Madrid e acaba de lançar um livro com o sugestivo título Mujeres Malqueridas, que sustenta a teoria de existirem mulheres capazes em tudo menos na vivência do amor e que, por causa disso, sujeitam-se a amar homens que, em troca, as amam erradamente. Estes homens ou têm compromissos paralelos ou invocam a impossibilidade de se comprometerem. Ainda assim, elas assumem as relações e fidelizam-se nelas, na esperança, diz a autora, de que o cenário mude, um dia. Só que ele, em princípio, não mudará.
Consigo admitir que este tipo de livros, de orientação, possam cumprir objectivos sérios e ajudar muitas pessoas a definir novos caminhos; ao mesmo tempo, assustam-me as generalizações que se possam fazer, especialmente quando no seu enquadramento surge o tópico: mulher/mulheres. Haverá mulheres para todos os gostos, assim como homens. Haverá as que desejam ardentemente casar, as que fogem a isso, as que querem ser mães, as que se recusam, as que investem na carreira profissional, as que investem na família, todavia, sei que a sustentar estas escolhas está o comprazimento que os afectos lhes proporcionam: é que ninguém deseja o vazio que a falta de amor enseja.
Não posso deixar de admitir que as relações estão diferentes, o compromisso tem vindo a tomar rumos atípicos na sociedade actual. Parece-me que tudo ocorre sob o regime da casualidade e da momentaneidade. De repente, somos todos pessoas independentes, modernaças, que gostam de estar sozinhas. Somos uma cambada de assim-assins, que foge da dor como o diabo da cruz. Aliás, a dor passou a ser a peste negra da actualidade. Só por isso vale a pena evitar o amor. As pessoas resguardam-se nos seus territórios esvaziados, evitam expor-se com medo de revelar a sua fraqueza. Choram às escondidas. Ainda assim, é justo falar em mulheres mal-amadas? Haverá mulheres mal-amadas? Ou há apenas as que são e as que nunca foram nem nunca virão a sê-lo? E homens? Há ou não homens mal-amados? Homens incapazes de amar?
Tenho alguma dificuldade, confesso, em aceitar que haja pessoas a amar outras de forma errada. É-me mais confortável acreditar que o amor ou existe ou não existe. Simplifica. Simplifica-me. Além de que a expressão "mal-amada" ou "malquerida"associada a mulheres perturba-me; é que fica no ar a ideia de passividade, de aceitação relutante de sentimentos que as não favorecem. Nenhuma mulher saudável será capaz de prolongar uma situação semelhante. Aliás, a mulher é capaz de tomar a mais difícil das decisões e por mais que goste, quando reconhece que a história se esgotou, não volta atrás. Nem mesmo para inventariar os destroços que ficaram pelo caminho.
"Eu já não posso mais
Olhar nosso jardim
Lá não existem flores
Tudo morreu pra mim
Não posso mais
Olhar nosso jardim
Lá não existem flores
Tudo morreu pra mim...
Mas não faz mal
Depois que a chuva cair
Outro jardim um dia
Há de reflorir!"
Maria Bethânia, As Flores do Jardim da Nossa Casa

terça-feira, setembro 23, 2008

A lógica do amor

Na nossa primeira noite juntos, efectivamente juntos, não consegui dormir (foi no dia 23 de Setembro de 1996 e parece que foi ainda ontem). Fiquei a olhar-te só para garantir-me da tua presença, da tua respiração. Eras tão pequenino, menos as tuas mãos - enormes, fizeram-me imediatamente imaginar o teu futuro: NBA! Cantei para ti, se pode chamar-se aos sons que emitia cantar. A verdade é que a minha voz acalmava-te. Senti que estavas habituado a ela. Havia outra mãe no quarto e o seu bebé, estranhamente, também se acalmava ao ouvir-me cantar. Esse foi o único dia em que percebi que a minha voz continha o amor necessário para soar bonita e ser escutada por alguém.

Foste a pessoa que mais ansiei encontrar, conhecer. E ainda não me desiludiste uma única vez. Tens sido um ser humano excepcional; é com orgulho que digo a todos e a mais alguns que sou tua mãe. E dizer isso, é dizer amor, felicidade, medo, sinceridade, lealdade, verdade, loucura, gargalhadas ou cumplicidade.

A tua voz, o teu riso, o teu olhar trazem-me coisas boas, mesmo quando me deixas profundamente irritada porque sais para o carro sem a mochila da escola ou te esqueces de despejar o autoclismo. Credo, nisso, podias ser um pouco menos igual a mim.

Um abraço teu devolve-me a paz. Um beijo a certeza de que o nosso amor é de toda e para toda a vida. Uma lágrima a violenta descoberta de que a que tu choras é-me mais dolorosa do que a que eu mesma choro. O teu olhar traz-me a doce contemplação de uns olhos que me reconhecem por dentro. E o teu sorriso... meu deus... esse sorriso diz-me que a vida, depois de ti, é maior e mais completa. Quero que cresças dentro da lógica do meu amor. Este amor tão puro e tão teu, que escapa a todas as lógicas do mundo. Disse-to uma vez, não me cansarei de repeti-lo: save the last dance for me!

sexta-feira, setembro 19, 2008

Noite feminina

Gosto das noites que não me exigem quase nada. Em que as conversas me obrigam a que seja apenas eu, sem tiques de sedução ou reflexos de maturidade. Normalmente, essas noites acontecem por acaso, não foi o caso da última.
Combinámos jantar de mulheres, num restaurante de um amigo. Bebericámos vinho e dedilhámos conversas. Ainda que tivéssemos conversas tipicamente femininas, não falámos sobre saias, camisolas, malas ou sapatos; o que prova que a substância do feminino não se resume a isso. Acho que falámos sobretudo de homens - sim, não desenvolvemos qualquer protótipo criativo para conversas de mulheres, nem essa era a nossa intenção - todavia, mais importante do que o assunto, foi a forma como se falou dele. E nós a três falámos dos homens como os homens falam das mulheres: recorrendo à frieza dos nomes próprios. Não houve nem pénis nem vaginas sentados à mesa connosco. Muito menos houve coito interrompido ou sexo oral. O nosso jantar parecia os encontros das grandes amigas de Sexo e a Cidade. Estava lá a Samantha, a Charlotte e a Miranda. A Carrie não pôde comparecer, está, por esta altura, a viver o seu conto de amor duradoiro com o homem que ama, mas senti tanto a sua falta.
De qualquer forma, uma coisa é certa, percebi que apesar de sermos tão diferentes, nos gostos, nas atitudes, nos estilos; queremos todas viver de forma intensa, dizer o que há para dizer, fazer o que tem de ser feito, sem medo, porque, no final, temos a certeza de que mais vale sofrer as consequências da entrega do que sofrer as consequências de não nos entregarmos. E isto faz-me lembrar a música cantada pelo Milton Nascimento, Caçador de Mim. Escutem-na aqui.
Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu, caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou-me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito à força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

quarta-feira, setembro 17, 2008

Nomes: o meu e o teu comigo

Só queria que tocassem todos os telefones e que a voz do outro lado fosse como todas as outras vozes, excepto numa coisa: no nome. Porque depois do teu nome, os outros que existem são murmúrios imperceptíveis contra a parede fresca do meu coração...

"Onde quer que o encontres
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
uma árvore, na pele de um muro,
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo – é teu,

para sempre, o meu nome."

Maria do Rosário Pedreira, in Nenhum Nome Depois

terça-feira, setembro 16, 2008

Pela Marginal fora

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "As Ondas"


Escolhi a marginal, hoje cedo, para fazer a travessia. O dia estava incrivelmente bonito. Talvez estivesse inexplicavelmente bonito. O mar era atravessado por braços de prata vindos do céu, que, múltiplos, se estendiam pela água, atribuíndo-lhe brilhos inenarráveis. O sol aquecia devagar a minha pele, filtrado pelo vidro do carro. O rádio estava sintonizado na Comercial, o Vasco Palmeirim, a Vanda Miranda e o Pedro Ribeiro têm uma energia que me comove, ainda que eu não os ouvisse, pois a minha atenção centrava-se somente na paisagem que me rodeava: a marginal tem um encanto muito próprio, que lhe é proporcionado pelo mar, que a limita.
À medida que avançava, fui reparando na vida que acontecia por ali. Reparei que, àquela hora, já havia pessoas no mar, dentro dos seus barcos. Não sei se à pesca, se em veraneio. Uns poucos aproveitavam para fazer a sua corrida matinal, ao vê-los , invejei-os. Invejei igualmente os pássaros que pareciam estar ali de propósito para tornar o quadro ainda mais especial.
Jamais poderia abandonar a paisagem que o mar me oferece. Mudar de país, sim; mudar de cidade, também, mas sempre, sempre com o mar por perto. Desconfio que é porque o mar tem a capacidade de parecer o mesmo em qualquer parte do mundo, levando-nos a criar a doce ilusão de familiaridade, que nos conforta a alma na distância.