segunda-feira, janeiro 23, 2012

Petição para ajudar o Sr. Presidente da República Portuguesa

Não estou chocada com as palavras do Sr. Presidente da República. Minimamente chocada.
O que me teria chocado seria o Dr. Aníbal Cavaco Silva dizer às televisões que consegue pagar as suas despesas com um salário de €500.00 - que é o que a minha mãe aufere por TRABALHAR há muitos anos numa escola pública.
Isso, sim, seria notícia.
Isso, sim, seria motivo de real consternação.
 Que queríamos nós, portugueses? Que a mais "alta" figura do Estado não tivesse motorista? Não fosse dona de um património considerável? Não tivesse acções no banco? Não tivesse privilégios? Ganhasse o suficiente para pagar as suas contas?
Os portugueses gostam de viver acima das suas possibilidades, pior, criam expectativas sobre os outros acima das possibilidades.
O arauto da poupança, dos sacrifícios equitativos, da contenção tem um salário de cerca de €10.000 mensais mas não consegue, ainda assim, pagar as suas contas.
Proponho que cada português doe €1 ao Sr. Presidente para que este consiga honrar os seus compromissos.
É que estou convicta de que em época de crise generalizada, daveremos todos ser capazes de levar mais longe sentimentos como a generosidade e a solidariedade.
Sr. Presidente, se me está a ouvir, diga-me como poderemos nós, cidadãos conscientes, ajudá-lo a ultrapassar esta fase tão difícil...

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Acredito que quando não escrevo é quando escrevo mais.
As palavras estão em tudo o que toco e a música dos textos ecoa no meu dentro, ainda assim, nenhum texto se vê, se apalpa, se materializa.
Nenhum texto se lê. A não ser aquele que eu ensaio nos momentos de profunda interiorização.
Até que... até que, num dado momento, não chegam as palavras escritas no nada, cheias de vazio e de mim.
Até que... até que, num dado instante, a escrita torna-se maior e faz-se leitura. Só aí, só aí não aguento mais as palavras dentro e grito-as.
Grito-as tanto que elas incham, explodem e nascem nos cantos de qualquer lugar, como este que me serve agora.
Senti saudades. Senti saudades do conforto do meu lugar. Do conforto da escrita que se quer minha.
Senti saudades de mim...

segunda-feira, outubro 24, 2011

Quem és tu?

Não estou a morrer, afinal.
Ou melhor, afinal, estou a morrer.
Isto na lógica determinista de que todos os que nascem, morrem.
Quntos são todos?
Todos, ora essa. E quando digo todos, são mesmo todos.
A minha doença é de Graves. Disse ela. E eu acredito no que ela disse. Respeitei-a, apesar do nome.
Quem se chama Leonce?
A não ser as figuras patéticas de televisão que num esforço desesperado para a diferença escolhem um nome de pronúncia difícil e de duvidoso bom gosto à filha, ninguém. Ainda que ninguém fosse também nome de alguém. Não de um alguém qualquer. Mas um de coroa e ceptro.
Não estou a morrer. Não há em mim uma quantidade maior de morte do que em outros que por mim passam.
Doença auto-imune, explicou-me. Como se eu não soubesse já. Como se não soubesse que sairia dali com mais medicamentos a tiracolo. Uns brancos, pequeninos, que me atacam assim que me tocam na língua: veneno. Blhac.
 Se pudesse, não os tomava. Quer dizer, eu poder posso sempre, mas isso seria atentar contra mim própria o que, na verdade, já acontece, visto que tenho a tal doença auto-imune. Ainda assim, uma coisa são os meus anticorpos andarem numa de rebelião massiva contra o meu sistema imunológico outra é eu decidir rebeliar-me contra o sistema médico e farmacêutico em prejuízo do meu próprio bem estar. Estupidez, diriam. Estupidez, assentiria.
Confirmações de diagnóstico - diz-me a Leonce - só com a análise aos anticorpos, que será efectuada lá para meados de Novembro.
Olho para ela, com olhos curvados, em jeito de súplica, as análises que fiz não chegam? Terei de fazer mais?
Desconfio que me cansarei rapidamente desta doença de Graves e dos comprimidos pequeninos que trago no bolso, nos dias em que a memória não me atraiçoa - como o de hoje, por exemplo.

Pior do que tudo isto, é viver num país tropical e, mesmo assim, ter de explicar aos alunos estrangeiros o que é a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno, quando num dia estão na Caparica a apanhar sol e no seguinte a calçar as galochas que lhes permitam atravessar a avenida que mais parece o TEJO, ainda que sem barcos.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Ó Evaristo, tens cá disto?

Ainda não me tinha apercebido de que não há carros velhos a circular em Lisboa. Só reparei nisso a semana anterior, logo após o acidente que sofri na descida da Pimenteira. Apesar da força do embate, o meu carro ficou a circular, só que em vez de um Peugeot passei a ter um Smart.
Confesso que me senti rídicula a passear pelas estradas com o meu carro em fase terminal. Olhava para o lado e via as viaturas dos outros: robustas, lavadas e sem arranhões; quanto mais feridas abertas, a correr o risco de septicémia.
Lembro-me de ver - não pode ter sido assim há tanto tempo! - carros velhíssimos a passear pela cidade, a chiar de dor.
Onde estão eles? O que lhes aconteceu?
Seremos todos ricos? Seremos todos capazes de sustentar a alarvaria dos carros; seguros, IUC's?
Ou a sociedade contemporânea rejeita tudo o que é velho, defeituoso, enfermo?
Viveremos todos uma espécie de vida e não a própria em si mesma?
Não me imagino a ser feliz num lugar onde tudo funcione, seja novo e imaculado.
Ergui o rosto e enfrentei a multidão de viaturas límpidas, imberbes. O meu carro tinha, pelo menos, uma história para contar...

terça-feira, setembro 20, 2011

Da doença e das suas consequências

Estou doente...
Não há nada de mais inútil (e deprimente também) do que a doença. E eu detesto tudo o que seja inútil.
Há muito tempo que não ia ao médico; evito aquele ciclo vicioso de diagnóstico-terapêutica-medicação. Aliás, não tomo químicos - decisão que me acompanha há alguns anos. Julgo que depois de ter assistido à degradação física da minha avó paterna, que morreu com uma cirrose provocada por medicamentos. Antes tivesse bebido até à morte. Ter-se-ia divertido muito mais e sofreria exactamente o mesmo, uma vez que foi vomitando o fígado aos poucos. Ainda me lembro de ver a minha mãe de joelhos, com um pano apontado a pedaços de carne ensaguentada e de ver o líquido escorrente dos lábios da minha avó, que já não tinham cor.
Não tenho medo de morrer. Disse-o várias vezes. Não me assusta o vazio do nada. Assusta-me, isso sim, dizer adeus. Não à vida, mas às pessoas que são a minha vida.
Não estou a morrer, ou pelo menos, não me parece que assim seja. Mas sou incapaz de interpretar a vida como um dado adquirido, como qualquer coisa de interrupção difícil ou adiável. Morrerei quando morrer.
Enfim, fui ao consultório médico com sintomas de anemia - confirmada depois de umas quantas análises sanguíneas -, e saí de lá com ela, com um hipertiroidismo, mais comprimidos de ferro, mais hemogramas, mais ecogrfia à tiróide e consulta de endocrinologia. As idas ao médico parecem-me avalanchas - um sintoma pequenino acaba por reduntar numa massa disforme e descontrolada de doenças que nem sequer ouvíramos falar.
Uma coisa é certa, estou hoje um pouco mais rica em termos vocabulares: aprendi uma palavra nova e os seus efeitos: decréscimo de peso - devo ser a inveja de umas quantas mulheres! -, perda de cabelo, descamação da pele, arritmia cardíaca  e cansaço generalizado.

terça-feira, agosto 30, 2011

19 de Agosto em 30 de Agosto

prometi-te um poema e não tinha, até agora, cumprido essa promessa.
como sei que há coisas que não acontecem por acaso, no dia anterior ao teu aniversário, estava sentado no sofá, de comando na mão, e passava negligentemente canais sem dar grande importância ao que era transmitido. até que fiquei, sabe-se lá porquê, a assistir a um filme sobre irmãs. o filme estava a terminar e uma delas dedica um poema de E. E. Cummings à outra. inevitavelmente, nesse instante, soube que aquilo era o que eu tinha para dizer-te. nem mais nem menos. aquilo. isto.


I carry your heart with me (i carry it in

my heart) i am never without it (anywhere

i go you go, my dear; and whatever is done

by only me is your doing, my darling)

I fear

no fate (for you are my fate, my sweet) i want

no world (for beautiful you are my world, my true)

and it's you are whatever a moon has always meant

and whatever a sun will always sing is you



Here is the deepest secret nobody knows

(here is the root of the root and the bud of the bud

and the sky of the sky of a tree called life; which grows

higher than the soul can hope or mind can hide)

and this is the wonder that's keeping the stars apart



I carry your heart (i carry it in my heart)





sábado, junho 11, 2011

Passeio pelo passado

Andei a vasculhar no passado. Numas folhas amareladas, gastas, que a minha mãe ainda guarda lá por casa, numa gaveta apinhada de memórias antigas.
Não foi um regresso pacífico, embora tenha sido emocionado e emocionante.
Andei, mais propriamente, a vasculhar as minhas fichas avaliativas referentes à primária e aos primeiros anos do básico. Não é que aquelas fichas me tivessem despertado ou alertado para alguma coisa que eu já não soubesse sobre mim, apenas vieram reforçá-lo ou clarificá-lo dolorosa e dolentemente.
Embora não consiga recuar aos primeiros dias de escola, lembro-me de ouvir os relatos da minha mãe sobre o choro e a agonia que me assaltavam de cada vez que ela me virava as costas ou, pior, me largava a mão. A sensação de abandono e de desconforto conheço-a muito bem. Ainda hoje sou assaltada por ela  em variadíssimos momentos.
Não há uma avaliação, em qualquer dos anos, em que não apareça escrita a palavra insegura: "A Sónia é uma criança insegura."; "Muito insegura, a Sónia precisa ainda de..."
O medo de não ser capaz, de não ser suficientemente boa para mim e para os outros, o medo de ser julgada, o medo de ser rejeitada, o medo de não ser amada, o medo de enganar e ser enganada, o medo de ficar só, o medo, o medo, o medo, o medo, o medo...
Estranhamente, e por contigências do acaso e do destino, este medo nunca foi um agente paralisador, antes pelo contrário,  foi um autêntico activador de vontades.
A minha insegurança congénita não me paralisa, obriga-me a avançar e sempre de encontro a lugares maiores, maiores, até, do que eu própria.
Ainda assim, continuo a ser aquela menina atemorizada com a dimensão da sala de aula e com o excesso de vozes e bocas. Demasiadas, excessivas para conhecer e confiar.
Continuo a ser aquela menina que aguarda pela mão que a guiará, enfim, ao lugar de consolo.
Consolada. Não mais sozinha. É o que desejo, em cada dia, que me suceda...