"Um dia beijo-te a meio de uma frase"
Não bebo café. Não tenho esse hábito. Não gosto do sabor. Só do odor que dele emana. É por isso que me dá prazer preparar café para oferecer às visitas lá de casa, numa cafeteira antiga que faz um café de merda, diga-se de passagem, mas permite que o cheiro permaneça por algum tempo nas minhas narinas. É verdade que a Nespresso, pelo que dizem, faz cafés deliciosos, mas não devolve ao ar o cheiro que tanto aprecio. Com a devoção que existe por estas máquinas hiper-mega-eficientes, tipo Nespresso ou Bimbi, impedimos, sem nos apercebermos, da possibilidade de activar memórias adormecidas pela acção do cheiro.
Por exemplo, o cheiro do arroz de cabidela leva-me de imediato para uma tarde de calor insuportável, para o quintal da minha bisavó, no Minho, e para vozes de tias e avó, acotovelando-se para se fazerem ouvir, misturadas com o som do pingar constante de patos mortos e depenados, de cabeça para baixo, dispostos em alguidares multicolores. Até hoje não suporto arroz de cabidela. Tenho o cheiro do sangue dos patos entranhado na memória.
Com o cheiro do café acontece-me pensar em hálitos quentes e dentes amarelo-acastanhados, sorridentes de chávena na mão, entregues àquele ritual silencioso de pega-na-chávena-com-a-ponta-dos-dedos-e-leva-a-aos-lábios. Fixo-me nos olhos e há muitos a espreitarem-me por entre as chávenas.
Não bebendo café, há uma série de outras coisas que não faço. Como sair de casa, aflita, para ir ao café da esquina, por exemplo. Não indo ao café da esquina, a verdade é que fico sem conhecer muitos dos meus vizinhos que frequentam aquelas paragens. E também não sou surpreendida com frases Nicola. A não ser que algum devorador de café, por simpatia, me estenda um pacote de açúcar onde está dito: "Um dia beijo-te a meio de uma frase" e me deixe pendurada de lábios esticados ansiando por esse beijo atrapalhador de frases...