quinta-feira, agosto 13, 2009

Ele e ela

(ela) - Tenho tanto medo.
(ele) - (sorrindo) O medo só te faz morrer por dentro.
(ela) - Não. Faz-me viver nas dobras do que sou.
(ele) - Então... ter medo pode ser bom?
(ela) - Em alguns casos, sim.
(ele) - Não percebo!
(ela) - (sorrindo) Eu tão pouco!

quarta-feira, agosto 12, 2009

The slag of my father

Caramba... sou uma gaja simples e à pergunta o que mais desejavas na vida, neste preciso momento, teria apenas e só esta resposta: receber do meu pai uma demonstração de confiança absoluta, que não fosse nem subtil, nem transversal. Uma confiança, confiança...

terça-feira, agosto 11, 2009

Hoje é o dia?

"Um dia beijo-te a meio de uma frase"



Não bebo café. Não tenho esse hábito. Não gosto do sabor. Só do odor que dele emana. É por isso que me dá prazer preparar café para oferecer às visitas lá de casa, numa cafeteira antiga que faz um café de merda, diga-se de passagem, mas permite que o cheiro permaneça por algum tempo nas minhas narinas. É verdade que a Nespresso, pelo que dizem, faz cafés deliciosos, mas não devolve ao ar o cheiro que tanto aprecio. Com a devoção que existe por estas máquinas hiper-mega-eficientes, tipo Nespresso ou Bimbi, impedimos, sem nos apercebermos, da possibilidade de activar memórias adormecidas pela acção do cheiro.

Por exemplo, o cheiro do arroz de cabidela leva-me de imediato para uma tarde de calor insuportável, para o quintal da minha bisavó, no Minho, e para vozes de tias e avó, acotovelando-se para se fazerem ouvir, misturadas com o som do pingar constante de patos mortos e depenados, de cabeça para baixo, dispostos em alguidares multicolores. Até hoje não suporto arroz de cabidela. Tenho o cheiro do sangue dos patos entranhado na memória.

Com o cheiro do café acontece-me pensar em hálitos quentes e dentes amarelo-acastanhados, sorridentes de chávena na mão, entregues àquele ritual silencioso de pega-na-chávena-com-a-ponta-dos-dedos-e-leva-a-aos-lábios. Fixo-me nos olhos e há muitos a espreitarem-me por entre as chávenas.

Não bebendo café, há uma série de outras coisas que não faço. Como sair de casa, aflita, para ir ao café da esquina, por exemplo. Não indo ao café da esquina, a verdade é que fico sem conhecer muitos dos meus vizinhos que frequentam aquelas paragens. E também não sou surpreendida com frases Nicola. A não ser que algum devorador de café, por simpatia, me estenda um pacote de açúcar onde está dito: "Um dia beijo-te a meio de uma frase" e me deixe pendurada de lábios esticados ansiando por esse beijo atrapalhador de frases...

segunda-feira, agosto 10, 2009

Mastiga e deita fora

Regressar de férias é como regressar de um país longínquo, de um país onde amanhece de noite e anoitece de dia, onde as pessoas caminham com a cabeça e pensam com os pés, de um país onde os ponteiros do relógio se movimentam da direita para a esquerda.
Só isso justifica a lassidão do cérebro em reaceitar os pequenos gestos que perfazem o quotidiano dos nossos 343 dias restantes, como se precisasse de tempo para se reajustar ao jet lag que a rotina do despertar sem hora marcada, do sol e sal no corpo, das leituras sem ritmo, das churrascadas às três da tarde, do riso, da família, do dolce fare niente provoca.
Até a escrever este texto, sinto falta de agilidade nos dedos e na mente. Neste exacto momento não sou nada mais do que uma pastilha elástica gigante, mastigada para a frente e para trás e que precisa urgentemente de ser cuspida...

domingo, agosto 09, 2009

Reencontro

Sento-me na areia e desenho nela uma linha dividida ao meio por um traço. Essa linha representa-me, sou eu menos gente, menos mulher, menos empírica, mas eu. O traço está ali para demarcar um antes e um depois.
O mar tropeça na areia e traz um apetite voraz, os seus braços de espuma estendem-se pela linha do antes, apagando-a. Só o depois permanece. E ninguém sabe o que diz.

O final das férias obrigaram-me a um novo início. Não tenho braços de espuma capazes de devorar os antes que somados fazem os hojes da minha vida; ainda assim, o depois que há dias inaugurei não me deixa margem para duvidar de que um mais um é realmente dois e que a dois tudo tem um valor maior. Porque? (oiço-te a perguntar mesmo antes de te ouvir)
Porque a dois dividem-se as tristezas, subtraem-se as amarguras e multiplicam-se os prazeres (respondo-te mesmo antes de me perguntares).