Quinta-feira, Maio 24, 2012

No bairro do amor há mentiras que não são minhas nem tuas mas de quem as apanhar

Há momentos de esquizofrenia incontrolável, em que o teclado não chega para a quantidade de palavras que tenho para dizer. Outros há em que o teclado me sobra nos dedos e as palavras se silenciam.
Reparei que fez hoje exactamente 30 dias desde a última vez que escrevi aqui, no meu lugar de intimidade e segredo.

Muitas coisas se passaram, entretanto. Não só em mim, comigo, mas também com os outros, comigo ou sem mim.
Morreram pessoas.
Morreram-me pessoas.
Houve viagens que se fizeram e outras que ficaram adiadas.
Segredos que me foram revelados e segredos que revelei.
Houve mentiras ditas como se fossem verdade. São estas as mentiras mais mentireiras, aquelas que as pessoas desejam incontrolavelmente que sejam a verdade.

Nunca me apercebi da curiosidade que suscito; vejo-me como uma pessoa vulgar, sem qualquer interesse relevante, e espanto-me de cada vez dou conta de que o meu nome é invocado por pessoas que nem sei bem quem são.
Sabem o nome dos homens com quem me deito, determinam os pais dos meus filhos - que variam consoante os gostos e a imaginação de cada um -, referem as actividades dos meus tempos livres, adivinham os meus medos e os meus desejos.
Não sei se ache graça. Se me ria. Se me espante.
Não sei se hei-de mandar as pessoas à merda.
Ou, talvez, dizer-lhes: "Vão-se foder e metam o nariz na miséria que é a vossa vida própria."
Não sei...
Talvez me ria. Talvez me ria às gargalhadas e pense: "Vão-se foder."
Sozinhas porque desconfio que não terão quem as queira acompanhar.

Terça-feira, Abril 24, 2012

Ainda eu não era nascida

Não tinha ainda nascido quando se deu o golpe de Abril.
Não havia eu, nem projecto de mim, quando a "Revolução"aconteceu em Portugal.
Mas não é por isso que não entendo o seu valor, a sua importância. É certo que será um entendimento romântico, talvez até estilizado, mas não é por isso que deixa de ser entendimento. 
Entendimento é entendimento.
Não será necessário passar por uma guerra para rejeitá-la. Ou morrer para não querer morrer. Logo, talvez não seja determinante ter vivido o fascismo para desprezá-lo como forma de organização política, social ou cultural.

Em 1974, havia gente a lutar por valores mais dignificantes do que o déficite, rating e outras coisas estranhas e de difícil percepção - pelo menos para uma parola, como eu.
Em 1974, a liberdade de pensamento e de expressão eram o mote das cantigas que se entoavam nas ruas e das bandeiras que se erguiam no ar. Ou eu imagino que assim fosse.
Antes de 1974, eu não podia estar aqui a escrever textos. Pelo menos textos que não fossem elogiosos do sistema, das pessoas que compunham o sistema - como se de um ramalhete se tratasse.
E agora eu posso. 
Eu posso e faço-o. 
Cada palavra que escrevo é a confirmação da minha liberdade. 
Da minha.Porque é impossível que exista apenas uma. 

Antes de 1974, seria impossível haver gente a dizer na rádio ou na televisão que, por discordar das políticas do governo, não iria assistir às comemorações oficiais do 25 de Abril. 
E agora podem.
Podem e fazem-no.
E há vozes que os apoiam. E há vozes que os criticam.
E a pluralidade de opiniões acontece. 
O debate dá-se.
Tudo porque, um dia, ainda eu não era nascida, houve gente que ousou mais do que ser e ajudou a contruir o sonho das liberdades. 
Festejando ou não. Comparecendo ou não nas comemorações oficiais, Portugal participa todos os dias naquilo que é o âmago de Abril: dizer o que se pensa quando se pensa no lugar em que se pensa.
Mesmo que hajam uns com mais direito a pensar do que outros.

Quarta-feira, Abril 18, 2012

PorTITANICal

Acho que as pessoas andam distraídas daquilo que realmente importa.
E o que realmente importa não poderá ser a morte anunciada da Maternidade Alfredo da Costa nem as caçadas ao elefante do rei  (vai em minúscula para ser fiel à grandeza do monarca) de Espanha.
Eu sei que é importante, de vez em quando, estupidificarmo-nos em frente à TV, até porque, muitas vezes, as matérias interessantes, cultas, inteligentes, criativas, não são suficientes e a nossa consciência (ou cérebro) precisa de se entreter com outro tipo de actividades, ainda assim, não posso deixar de me espantar com a onda de solidariedade humana que nasceu à volta da Alfredo da Costa nem com a onda de indignação gerada à volta das caçadas de elefantes do rei (mantenho a minúscula para ser coerente) espanhol.

Num país à beira do colapso, em que, semana após semana, são anunciadas pelo governo (uso a minúscula para demonstrar a pequenez dos que nos governam), eleito pela maioria dos portugueses (no qual orgulhosamente me excluo), medidas que revelam, acima de tudo, falta de honestidade e transparência política, há um povo entretido com o fecho de uma maternidade (inegavelmente histórica) e as caçadas de um rei moribundo.

O atraso de 2 anos na reposição do 13.º e 14.º meses nos salários dos funcionários públicos; a proibição das reformas antecipadas, o aumento de quase 7% do gás natural (que representará, em 2012, o segundo aumento); o  sucessivo aumento do preço dos combustíveis; o aumento sem precedentes do número de desempregados; a intenção de aumentar a idade da reforma sem antes reformar a mentalidade dos empregadores que continuam a desvalorizar colaboradores com mais de 30 anos; a constante ameaça (que não passará de mera ameaça, uma vez que o medo é o melhor amigo na guerra da ignorância insane) da falência da Segurança Social; o débil e confrangedor Sistema Nacional de Saúde, a verborreia institucional do Primeiro Ministro; a morbidez do ensino superior, todas estas questões deveriam ser discutidas abertamente pelos portugueses e a indignação deveria resultar daquilo que as mesmas suscitam ou fazem advinhar.

Não podemos andar à deriva no Botswana ou na Rua Viriato, em Lisboa... corremos o risco de afundar, sem antes embatermos num icebergue de razóaveis dimensões.

Quarta-feira, Abril 04, 2012

Prisão sem grades

Fechada.
Encerrada no meu próprio mundo cor de rosa.
Conheço de cor os detalhes de cada parede branca cá de casa. Os leves riscos pretos, aqui e além, marcam uma passagem mais apressada, um objecto arrastado, os saltos esquizofrénicos do cão.
Enfadonhos e previsíveis: os meus dias.
Às 7 acordo. Fico deitada a tentar perceber os centímetros que a barriga cresceu. Não cresceu tanto como eu gostaria.
Às 8 é hora de dar o Zoref ao Rodrigo; apanhado, nas férias da Páscoa, por uma pneumonia.
Às 9, o pequeno-almoço. 
Das 9 às 13, a invenção dos dias: leituras, escritas, telefonemas feitos e atendidos.
Almoço: comida ingerida mais uma vez.
Às 14, o descanso de nada. 
Às 15, a televisão acesa e o zapping sucessivo: tenho dedos imparáveis e fome de qualquer coisa que a televisão não consegue saciar.
16, 17 e 18h:  lanche; pão com qualquer coisa e leite. Vitaminas. Sais minerais. Vida a necessitar de consolidação.
19h, a preparação para o jantar. Ementa de hoje: polvo cozido. A mãe faz. A mãe que, ansiosa, assiste ao desenrolar dos acontecimentos últimos e procura espantar o medo com comida.
Digo-lhe "Mãe, não precisas de preocupar-te. Nós fazemos o jantar." Mas entendo que, para ela, esse gesto seja o seu remédio para afastar o medo e dizer-me "Gosto de ti".
20h,de novo, o Zoref - antibiótico administrado de 12 em 12 horas, para que não hajam falhas, o alarme telefónico. Nunca fui mãe de remédios. Ou boa mãe de remédios. Esqueço-me deles. Corre bem nos primeiros dias, depois esqueço-me da hora. Há coisas que não mudam. Esta não mudou.
 20h, o jantar: igual ao lanche, que já fora igual ao almoço e igual ao pequeno-almoço - máquina ingeridora de alimentos.
Se fosse quinta, que não é, é quarta, seria dia de Anatomia. Gosto dos dias que são de Anatomia. Há um instante de mim que é prenchido por aquelas histórias ficcionadas.
Hora de dormir. Fechar os olhos e imaginar outro mundo cor de rosa, longe, longe, longe, longe, longe daqui. Com as mesmas paredes.
Os mesmos riscos pretos.
A mesma mãe. Filho. Namorado.
A mesma Anatomia.
Livre.

Segunda-feira, Março 26, 2012

Balanço da greve geral de 22 de Março de 2012: dois fotojornalistas atingidos a murro e a pontapé e regular funcionamento das instituições (transportes incluídos)

Vivemos entre hipócritas. No meio deles. Debaixo deles. Por cima deles. Ao lado deles.
Somos eles.
Alarido. Greve Geral. Transportes. Paralisia. Xis por cento de adesão. Confrontos. Movimento 15 de Outubro.
A greve geral foi um fiasco. Ninguém com coragem política para o dizer. Só eu. Quem nem política e muito menos corajosa. Apenas atenta.
A maior parte das pessoas não pode prescindir de um dia de ordenado para ir para as ruas brincar às bandeirinhas, aos murros e aos pontapés.
O alarido que se montou à volta da Brasileira, como em esplanadas das redondezas, dá vontade de rir. Ou pior, embaraça o mais fraquinho dos gregos.
Haverá motivo para tanta discussão à volta da atitude da polícia?
Não tem a polícia obrigação de zelar pela ordem pública?
Queremos deixar os arruaceiros destruir o que ainda nos resta do que entendemos por liberdade?
As condições de vida dos portugueses não vão sofrer qualquer alteração por via da banditagem, algazarra e confusão.
Cabe-nos a  todos nós, que, em conjunto, somos "os portugueses", agarrar no pedaço de Portugal que nos cabe e fazer com ele o melhor que podemos e sabemos. Isso implica deixar as  montras partidas ou a força bruta para outros.

Quarta-feira, Março 21, 2012

Por que morrem as crianças?

Os judeus acreditam que Messias está ainda por vir. Que este chegará numa altura de paz absoluta no Mundo.
Eu, se querem saber, duvido.
Duvido, em primeira instância, da existência de um Messias.
Em segundo lugar, da sua chegada numa altura de paz absoluta.
Se assim fosse, qual a utilidade da sua vinda?
Comprovar a sua existência?
Só aos cépticos (e cegos) - como eu - é necessário provar ou comprovar qualquer coisa que se prenda com a religião, com a crença.
Ou se acredita.
Ou não.
A terminar, é imprescindível que duvide do conceito "paz absoluta".
Se já nem PAZ se sabe o que significa... quanto mais absoluta.

(...)

Tenho sono.
Sinto um torpor a crescer-me de dentro.
Se não parecesse muito mal, dormiria em cima da minha secretária. Os braços enrolados e por cima destes a cabeça pendente, semi-adormecida.
Os olhos, lânguidos, a cerrarem-se contra a minha vontade, a verem coisas imaginadas de mentir.
A respiração lenta, num sopro sonhado.
A consciência a entregar-se ao vazio de não existir.
O descanso, enfim, a tomar conta de mim, como uma mãe do filho.

(...)

Não tenho a força dos judeus. Nem a crença dos cristãos. Não tenho as convicções dos muçulmanos. Nem as certezas dos protestantes.
Mas sei que não há nada que justifique a morte de uma criança.

Segunda-feira, Março 19, 2012

Singularidades de uma rapariga falsamente loira

Todos os que me conhecem sabem da minha aversão a dias marcados no calendário para celebrar o amor.
Não reconheço legitimidade nesse acto. Os pais, as crianças, as árvores, os imigrantes, as mães, os refugiados, as mulheres preexistem e pós-existirão depois da data assinalada.
Dir-me-ão, ainda assim, que essas datas cumprem a sua função: a de lembrar.
E quem disse que eu esqueço?
Quem?
Não é por ser dia do pai que vou gostar mais do meu pai.
Ou que por ser dia da árvore vou gostar mais de árvores.
Ou por ser dia do refugiado vou querer ajudar mais os refugiados.
As efemérides teriam mais e maior interesse se não viessem acopladas a frenesins de compra e venda.
A venda de flores dispara no dia da mãe. No dia do pai será a venda de aparelhos electrónicos. No dia dos namorados, a venda de bombons e ursinhos de pelúcia.

Só não dispara o mais importante, porque não é vendido em sítio algum: o amor das coisas simples.
Ainda por cima, só as coisas simples podem ser verdadeiramente BELAS.