Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Sun... set

Embrulhada pelo sol da manhã a querer ser sol da tarde e sol da noite, fui.
Só não fui muito longe, não porque o sol da manhã me provocasse macerações na pele, mas porque o desejo de ter me provoca macerações na alma. E as feridas demoram o seu tempo a sarar, se é que saram definitivamente...

Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Eufemismos

Não me incomoda falar da morte, pensar na morte, admitir que penso na morte. Como não me incomoda dizer CANCRO ou SIDA ou TUBERCULOSE. E fico pior do que estragada - ainda que ame as palavras e o que se pode dizer e ocultar com elas - quando oiço isto:
- Morreu de doença prolongada.
O que é uma doença prolongada? Do que é feita? A que sabe? Tem cura? Não tem cura? Faz doer?
Pensem de mim o que queiram, mas eu falo na morte, na doença e na tristeza sem luvas de pelica; mexo, remexo, toco, retoco nessas realidades incómodas como o cheiro do lixo que se atravessa na estrada, apanhando-nos desprevenidos a voltar de um lugar qualquer.
Se vimos um pobre, viramos a cara. Se vimos um velho, viramos a cara. As coisas feias não têm lugar no nosso mundo. Vivemos cada vez mais à procura do eternamente belo, só que é precisamente por ser raro e breve e instantâneo que o belo tem valor estético.
Para quê eternizar o que durou sempre e apenas um instante?

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Mon coeur

Ou é a máquina de lavar loiça que avaria, ou o carro que deixa de funcionar, ou o marido que nos troca por uma morena altíssima, com sotaque latino, e umas mamas perfeitas que nem se mexem com o andar, ou são os filhos que pedem tudo, exigem tudo, nos levam tudo sem um obrigado suspenso pelos lábios, ou são os chefes que pedem tudo, nos exigem tudo, nos levam tudo sem um esgar de reconhecimento no olhar, ou é a família que só se lembra que é família quando precisa de um favor ou da nossa presença numa qualquer festa sem importância, ou são os amigos que andam demasiado ocupados a ser amigos de tantos outros amigos e a sobreviver aos caos da vida de todos os dias, ou é a televisão que estupidifica mais do que solidifica, ou é o Governo, a Nação, o Estado que nos rouba de nós próprios e nos torna reféns de uma realidade que não existe nem nunca existirá, ou é o cão do vizinho que ladra sem parar, ou as crianças do bairro que gritam e pulam como se o mundo fosse acabar - irá, com certeza, mas não hoje, não agora - ou é o carteiro que insiste em colocar as cartas do vizinho na nossa caixa, apesar de avisado do facto, ou são as doenças a levar-nos a saúde e a juventude para um lugar distante, afastado do alcance das nossas mãos, ou é a preguiça a impedir-nos de ser quem gostaríamos e a deixar que nos contetemos apenas com o que somos, ou é a ambição do "ter" a corroer-nos por dentro, a fazer-nos olhar em volta desejando outro telemóvel, outra casa, outro carro, outra televisão, outro marido, outra mulher, outros filhos exactamente como aqueles que aparecem nos anúncios comerciais, ou é o tempo que não sobra e que, entretanto, é gasto com o que não importa, ou é isto ou a ausência de tudo isto... "E assim/ Nas calhas da roda/ Gira, a entreter a razão,/ Esse comboio de corda/ Que se chama coração." (Autopsicografia, Fernando Pessoa)

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Time to DIE

E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como sei exactamente que a minha mãe, ao acordar, coça o corpo como se estivesse a tomar consciência da sua existência.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Assim como sei que o meu pai jamais admitirá um erro, uma falha, um engano.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como sei de cor os gestos que o meu filho faz antes de acordar ou o alcance do seu sorriso ou a lonjura do seu abraço.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Assim como sei que a minha irmã se entristece com a tristeza da vida.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como sei de cor de que palavras é composto o grito do meu sobrinho que antecede cada primeira vez no nosso encontro regular.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Assim como sei que o meu avô desconhece a forma correcta de pronunciar o nome dos actores mas pronunciando-o eu reconheço cada um deles.
E se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como sei de cor a cor dos olhos da minha avó e o peso do seu amor.
E se eu dissesse que sei? E se eu dissesse exactamente isso, que sei? Se eu dissesse que sei exactamente como vou morrer?
Como conheço a cadência dos meus passos antes deles acontecerem, como conheço os meus medos antes deles existirem, como conheço as minhas fraquezas e defeitos antes deles se revelarem.
E se eu dissesse que sei? Que sei exactamente como vou morrer?
Todos abanariam a cabeça em sinal de recusa, chamando-me louca com os olhos.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Memóires

Lisboa. Chiado. MetroStudio. Três da tarde. Mãe. Irmã. Sobrinho. Eu. Melhor, eu com ar de quem dormitou apenas umas horas e desejava ardentemente voltar a fazê-lo.
O som das lavagens. O som das tesouras nos cabelos. O som dos secadores: melodias suaves aos meus ouvidos a arrastar-me num embalo permanente.
-Tia (a mão dele pegou na minha), quando é que sou eu a cortar o cabelo? Eu não quero os caracóis.
Respondi-lhe que a Vânia estava a acabar de cortar o cabelo de um cliente e logo a seguir seria ele.
Começámos a falar de Power Rangers, de Cars, de Homem-Aranha e em pouco tempo atraímos outra criança como ele para o nosso mundo.
Desliguei o piloto automático que se concentrava em horas não dormidas e em cansaço que daí advinha e entreguei-me à arte mágica de ser novamente criança.
Contei histórias. Eles ouviram. Cantei canções. Eles ouviram. Tivémos conversas sérias e conversas fingidas e os ponteiros do relógio caminhavam em direcção ao tempo futuro, só que nós os três nem dávamos por isso.
O pai do André estava despachado. A mãe do André disse-lhe que estava na hora de ir embora. O André disse-me que não queria ir:
- Posso ficar mais um bocadinho? Eu não quero ir.
Agarrou-me na mão e olhou-me dentro dos olhos:
- Amanhã posso vir outra vez?
- Posso ir à casa dele (apontando para o Santiago)?
- Eu não quero ir (disse outra e outra vez).
Tive vontade de pedir aos pais do André que o deixassem mais um bocadinho. Íamos voltar a viajar pelo mundo dos pequeninos e com isso crescer uns centímetros.
O André abraçou-me para se despedir e aquele abraço foi tão sincero que por segundos quis impedi-lo de ir.
Não impedi. Ele foi. Eu e o Santiago ficámos.
Aquele menino vai crescer e nunca mais se lembrará daquelas horas passadas no cabeleireiro, em Lisboa. Ao contrário, eu quero que o André seja uma das memórias permanentes na minha história pessoal. Por isso escrevo o nome dele nestas páginas - impedindo-o de morrer.
Eu e o Santiago, depois dele cortar o cabelo e manter os caracóis (a mãe teve mais força do que a sua vontade de criança) continuámos a empreeender viajens infinitas:
- Tia, porque é que o Homem-Aranha está ferido?
- Foi o Octupus.
- Porquê?
- Porque o Octupus é mau e queria fazer mal à MJ.
- Porquê?

- Porque o Octupus quer matar as pessoas de quem o Homem-Aranha gosta.
- Porquê?
- Porque as pessoas más fazem maldades.
- Porquê?
- ...

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

O dia que este dia é...

Hoje é dia de ver o amanhã amanhecer.
Hojé é dia de atirar os sapatos para um canto e dançar com os pés no chão, a sentir a vida por baixo de nós.
Hoje é dia do corpo gritar pela emancipação dos gestos e do ser.
Hoje é dia de sorrir entre conversas que começam de pernas para baixo e terminam de pernas para cima.
Hoje é dia de ver a vida a acontecer.
Hoje é dia de distribuir abraços quentes por quem nos entende sem ser preciso abrir a boca.
Hoje é dia de esquecer a formatação de todos os outros dias e ver a beleza que existe nisso.
Hoje é dia de descoordenar os passos, a dança, o espírito.
Hoje é dia de ficar com uma capinha preta nos pés, uma dor nos abdominais e um rasto de satisfação que teima em permanecer connosco e com os outros que fazem, afinal, o "nosco".
Hoje é dia de dia e de noite também.
Hoje é dia de aconchegar a saudade de dias anteriores.
Hoje é dia do sono não chegar, do cansaço não existir e do sonho ser a construção do dia-a-dia e do dia-a-noite também.
Hoje é dia de chegar ao fim do dia e dizer: hoje é dia de o dia ter as horas que o dia não tem.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Cucurrucucuuuuuuu Paloma

Vinha pela A5 , como sempre venho, absorta nos pensamentos do dia, que raramente são os mesmos do dia anterior - é aqui que finco o pé à rotina - quando à minha frente os carros empreendem um desvio a um obstáculo que se encontrava na via mais à direita.
Primeiro pensamento:
- Carneiros! Se um se desvia, os outros vão atrás, sem pensar sequer na razão. Eu cá não me desvio! - resolução de uma mulher decidida e não compactuante com carneirada.
Os carros foram fazendo a dança do desvio e eu, determinada em seguir em frente, mais próxima do obstáculo, reparei que à frente da frente do carro estava, nem mais nem menos, do que um passarinho encolhido sobre si mesmo, alheio ao que o rodeava, ansioso por passar despercebido numa paisagem de cimento que lhe era igualmente alheia.
Segundo pensamento:
- Que estúpida! Ai são carneiros, são? Então não te desvies, a ver se tens coragem.
Terceiro pensamento (quase em simultâneo com o segundo)
- Aquele passarinho sou eu (e estará aqui para me lembrar disso?)
Quantas vezes não me coloco, inadvertidamente, no centro das atenções e depois fico quieta, encolhida sobre mim própria, tentando passar despercebida?
Frágil, talvez doente ou perdido ou sem rumo, aquele passarinho fez uma pausa na sua vida de pássaro e ficou por ali, absorto, moribundo, amolecido.
Quarto pensamento:
- Vou parar. Vou pegar nele entre as minhas mãos e levá-lo ao veterinário.
Quinto pensamento (já ao som de buzinadelas)
- Carneiros! Já que se desviam, deixem-me ao menos parar para fazer um pouco mais.
Não deixaram. O passarinho ficou por lá. Não sei durante quanto tempo. Talvez tenha morrido. Talvez tenha tido o ímpeto do voo e fugido. Talvez tenha adormecido e sonhado com árvores e ramos e lugares distantes. Talvez...
Quanto a mim, embalo-me ao som da música que continua a tocar mesmo quando já não a oiço.
"Dicen que por las noches
No má¡s se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
Ay, ay, ay, ay, ay
Gemia
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
De pasion mortal
Moria
Que una paloma triste
Muy de mañana le va a cantar
A la casita sola
Con las puertitas de par en par
Juran que esa paloma
No es otra cosa mas que su alma
Que todavia la espera
A que regrese la desdichada
Cucurrucucu
Paloma
Cucurrucucu
No llores
Las piedras jamá¡s
Paloma
Que van a saber
De amores "
Caetano Veloso, versão Hable Con Ella