terça-feira, agosto 24, 2010

Férias à beira de um ataque de Família

A minha mãe parece uma mulher de 70 anos. A minha avó parece uma mulher de 50. A minha mãe tem 51. A minha avó 73.
As férias em família são uma confusão. Ou há pratos que sobram na mesa ou há pratos a mais. Há pessoas a entrar e a sair, num correpio ininterrupto.
Eu gosto. Mas também me agrada o silêncio. Sobretudo aquele que nasce por de dentro. Que forra o interior e o aconchega.
Antes de me habituar ao computador, só gostava de escrever no papel. Agora que me habituei a escrever no computador, não gosto de escrever no papel. Fico mais lenta, os pensamentos de escrita não fluem tão rapidamente. E a letra aparece-me desordenada.
Às vezes gosto da minha caligrafia. Outras não. Uma vez uma professora acusou-me (injustamente) de ter assinado o teste pela minha mãe - de tão parecidas que seriam as caligrafias. O máximo que fiz, ainda que não dessa vez, foi ter alterado um Insatisfaz para um Satisfaz.
Foi aí que me dei conta da diferença que umas palavrinhas podem ter no nosso destino. A minha mãe apercebeu-se da rasura no "In". Castigou-me. E fez muito bem.
A mentira não é tolerável. Embora passemos nela grande parte do nosso tempo: tenho de ser feliz. Tenho de ter uma casa. Um carro. Ter um bom emprego. Ter dinheiro.
A minha avó não sabe ler. Quando vínhamos de Lisboa para Fernão Ferro, disse-me:
- Aquela casa tem uns escritos. É porque está à venda.
A minha avó nunca teve carro. Nem dinheiro. Nem um bom emprego. A casa que agora habita ocupou-a há 35 anos, após a Revolução de Abril. Entrou nela e lá permanece... até hoje.
À sua maneira muito própria, é feliz. Sem computador. Com pouco silêncio. Sem palavras e cem mentiras.

3 comentários:

Doce disse...

Bom texto! Gostei do trocadilho final.

Robson Ribeiro disse...

Oi, Sônia.

Gostei muito. Eu, certamente, gostaria de conhecer sua avó e aprender com ela.

Beijo.

FigueiRita disse...

Amei as cem mentiras... ahahahahahahahahahahahahahah